- Traga mais uma dose e sirva-nos!
- gritei em tom amargo para causar espanto.
- Não me omita sua vida, pobre poeta,
desconfio de todos seus temíveis prantos.
- Não mentirei que me sinto fraco por dentro,
mas não conto detalhes de meu sofrimento a ninguém.
- Nem mesmo para um outro mísero velho
amigo que confessa lhe querer bem?
- via o garçom assustado trazendo a bebida cuidadosamente.
- Apenas meus versos sabem como estou.
Poemas que nunca ninguém lera.
- e com os olhos fechados, seu rosto deitou.
- Como ousa dizer uma bobagem dessas? - indaguei.
- Repetirei que eles não fazem noção.
Todos lêem minha vida com vidrados olhos,
mas olho vidrado não é coração.
- Desculpe-me, caro amigo, mas desta não concordo,
- continuei e virava mais um guloso gole ardido -
sei bem que suas rimas é seu breve retrato.
Bendita Paris, achaste que havia partido?
- Não finja saber algo sobre mim.
Só eu sei o que ferve meu sangue.
- Pois eu sei muito bem o que sentes, covarde!
Somos filhos da mesma gangue.
- Grite mais alto, demônio em pessoa,
todos adorariam saber o que guardo.
- Controle-se! Ainda não acabamos nossa conversa.
- Espero que ninguém tenha escutado.
- Não se preocupe. Esquece que ninguém nos ouve?
- Cale-se! Não te aguento mais, cafajeste.
- Tolo, ainda somos dois no mesmo corpo,
pensando num verso que realmente preste.








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