1. 15 November 2010

    Momentos desconexos

    Momentos desconexos

    Fingirei não me importar contigo e, ainda assim, seria incapaz de notar. Devo encarar essa sua paixão recente por outro alguém? É pergunta sem resposta. Mantenho minha cega visão. A verdade é que só provo meus sentimentos com palavras chulas, palavras mudas. É assim: quando estou ao seu lado, esqueço de todos meus problemas e sempre pareço um idiota sem consciência. Meus gestos são brutos. Desde a última vez, não paro de pensar em ti. Se você diz “estou saindo com outro cara“, eu simplesmente ignoro. Talvez seja porque eu saiba que teremos nossos dias… juntos. Prometo não te incomodar novamente em momentos desconexos; é que você haverá de saber que todo instante eu preferiria ser seu. Lembra-se quando tentava dormir e eu, sempre eu, fiquei ali acariciando seu rosto, alisando seu cabelo? Incrível… e novamente a incoveniência estava ali presente. Como dito: Não te incomodarei novamente… em momentos desconexos. Sigo quieto e quietamente sigo amando do jeito que eu sei te amar.

  2. 20 September 2010

    Partiu-se, partiu-me!

    As garrafas que sobraram sobre a mesa já estão vazias e os cacos de vidros ali no chão são outras que se rebelaram. Os soluços entre os últimos goles, a carícia entre duas mãos e as cinzas sopradas ao ralo da pia. A cozinha inundada de sufoco e angústia. O rádio no volume mais alto com a música mais gritada. Eu não tenho mais consciência dos meus atos. Não temos sequer mais um prato para alimentarmos os cães na garagem. Garfos, facas, colheres e copos; beijos, abraços e nossos corpos. Há pouco o suor escorreu e empoçou no umbigo. Venha; vem que isso só passou de confusão entre embriagados. Vem; venha e traga mais uma dose dessas garrafas vazias. A música que era ruim, piorou. O gosto que era bom, melhorou. Roupas jogadas no sofá e estamos nus no corredor do banheiro. "Olhe aquele espelho, querida!". Quantas vezes eu já chorei olhando para ele? Quantos sonhos eu tive pensando em estar aqui com você? E toda a maravilha se foi e, o sofá despediu-se das roupas e, a coragem me faltou quando eu só precisava pedir: "Fique mais um pouco, amor!"...

    Agora tudo que restou foi uma cara de espanto, meu sono, uma foto e mais dias comuns.

  3. 13 September 2010

    Boteco de esquina

    Briga de boteco

    Aí acendi um cigarro como se cada tragada voltasse um minuto no tempo. Nada adiantaria, claro. Só via, já ao longe, a penumbra de alguém que caminhava lentamente. Mais uma discussão dessas de boteco de esquina e sem nenhuma novidade eu estava no meio dessa confusão. Mais uma tragada e o minuto não regrediu. Fiquei ali, refletindo sobre o que acontecera, vendo os curiosos rumando aos seus cantos e enchendo os pulmões de fumaça cinza. Levantei uma cadeira de ferro, montei-a, não quis sentar. Havia gente ainda me olhando como se fosse espécie rara no zoológico, atração turística da cidade. A penumbra do homem agora era só pó. Forcei a visão, mais uma tragada e não via mais ninguém mesmo. Enfim, a vitória é dada. Só há vitória quando o oponente some do campo de visão de quem venceu. A regra é essa quando não há árbitro, não há quem estenda seu braço ao céu declarando ao mundo a sua honra. Mais uma tragada e o cigarro parece não ter fim. Só agora que subjetivamente declaro-me vencedor é que reparo nas garrafas e copos estilhaçados pelo chão. Parece que crianças estavam brincando por aqui e sequer tinham medo de se cortarem com os vidros. Aos olhos do público éramos legítimas crianças, das grandes. Ao meu ver, éramos dois cães brigando pelo mesmo território. Sou dono do pedaço. Nada que dois tabefes e meio e alguns empurrões não resolvam a situação. Apareceu, quis dar uma de malandro e mexeu com mulher onde sequer foi convidado? Tinha mais que levar coronhada mesmo. De certo, não sei de onde apareceu tanta gente em tão pouco tempo. Deve ter uma rádio-notícia por aí que eu desconheça que sai avisando patifaria por todo lado. Traguei mais uma vez e enfim ataquei a bituca ao longe num estralar de dedos. Os minutos não voltaram...

    Arrependimento só existe perante àquilo que deixo de fazer. Certo que talvez eu pudesse ter sido um pouco mais cordial e não tê-lo atacado feito vampiro com sede de sangue. Sequer tentei uma conversa entre homens, mesmo que fosse só para deixar claro que iria estourar a cara dele. Sou sujeito impulsivo e não sei topar um papo. Parto pra briga antes mesmo de vestir as luvas e preparar os músculos para o esforço. Até que sou bem tratado pelo pessoal daqui, mas eles sabem que sou casca de ferida. Acendi mais um cigarro. Não estou nervoso, mas gosto de disfarçá-lo mesmo assim. É um sintoma complicado de explicar, mais ainda de entender. Sujeito fácil foi este! Em pleno sábado à tarde fiz a lição de casa de um final de semana inteiro. Algumas tragadas consecutivas e refleti como estaria o momento se não tivesse ocorrido briga. Provavelmente o sujeito estaria se esfregando em mais um guria, tratando o garçom com ar de deboche e apostando fichas na mesa de sinuca. Os amigos de bar olhariam, olhariam, olhariam e esperariam alguma reação minha. Bom, eu só quis economizar todo esse tempo de espera. Mais uma tragada e veio o atendente ao meu lado com cerveja e copo nas mãos, largou tudo sobre uma mesa que estava perto de mim e disse que era por conta da casa. Pensei: sou heroi.

  4. 04 July 2010

    O dono do bar

    Dose

    Vinha um homem arrastando os pés
    no auge de sua velhice; resmungava.
    Logo ao debruçar no balcão sem cor,
    pediu com a voz pigarreada:
    - Quero uma... da mais escura.
    Dose mesmo foi aguentar aquilo tossindo,
    fumando e forçando saliva goela abaixo.

    Doze dias depois, volta o velho.
    O mesmo papo evasivo, neurótico...
    Em suma, a aparência é de um estado eterno
    de embriaguez. Talvez até seja!
    Amargurado então, repetiu o pedido:
    - Quero uma – a mesma pausa - da mais escura.
    E foi-se o tempo junto com as moedas;
    foi-se o pigarro em forma de gente.

    A vida de um dono de bar
    (se ainda posso chamá-lo assim)
    tem dessas maravilhosas estranhezas.
    Numa noite qualquer, em meio ao desejo
    das portas serem fechadas e meu sono descansar,
    torno-me o melhor amigo de um desconhecido.

    Acompanho-os, pois faz parte da minha encarnação.
    Ao mesmo tempo que alegro-me pelo dinheiro,
    entristeço meu rosto em ver um bêbado fudido
    buscando no calor do álcool uma explicação.

    Indago mentalmente, desafiando o tempo:
    - Até que ponto estes corpos suportarão?
    (Estes são de homens mergulhados em vícios.)
    A resposta perdi entre os goles
    de outro bêbado que reparo há horas.

    E uma, duas, três doses a mais...
    se impeço-o, barro meu ganha-pão;
    daria graça à concorrência.
    Uma ajuda seguida de atrapalho.

    E uma, duas, três horas depois...
    vai ziguezagueando em plena escuridão.
    Era o último cliente ciente da inconsciência,
    pobre novamente, bêbado pra caralho.

    Sigo o meu caminho. Antes e sempre,
    confiro o trinco da porta... e parto.
    As moedas no bolso aguardam ansiosamente
    para servirem de troco noutro dia.
    Sei que não faltarão homens no balcão.

    Logo cedinho, vinha um homem arrastando os pés
    no auge de sua imundice; implorava:
    - Não peço nada mais, senhor, do que um copo d’água.
    Nem medi esforços para abrir a torneira e
    encher um americano até a boca. Ofereci!

    Em um gole (e meio), o sujo matara a sede.
    Olhou a volta, pausou por um instante eterno
    e pousou os olhos numa garrafa semi-vazia da estante.
    Debruçou no balcão, como já era de costume de outros homens,
    e em tom de respeito falou:

    - Senhor, era daquela garrafa que meu falecido pai bebia.
    Não tenho trocado algum para oferecer-te,
    mas agradeceria profundamente se desse o direito
    de experimentar o pecado que aquele cometera tantas vezes.

    O bar vazio tornou-se ainda mais quieto.
    Era contra meus princípios agir assim:
    uma vez fiado, sempre ocorreria.
    Mas diante daquele aparente mendigo,
    fiquei partido e, em falsa amargura, respondi:

    - Tudo bem. Terá essa vez também como a última.
    Ousará voltar aqui apenas quando tiver moedas.
    Sinalizou a cabeça como se tivesse de acordo
    e levou a garrafa a boca como se fosse refresco.
    Ao engolir a bebida ardida, espremeu os olhos:
    havia pecado assim como o pai fizera.
    Deixei levar o vasilhame, talvez como lembrança
    disfarçada de esperança.

    E naquela manhã, ainda dorminhocas,
    as moedas ficaram quietas, nem serviram de troco.
    Esperaram a noite! Pois depois do expediente,
    em multidão, os homens vêm para gastar,
    beber e esquecer do que não podem lembrar.

  5. 16 June 2010

    A fechadura enquanto dura

    A fechadura enquanto dura

    Nem olhou de volta, abriu a porta e partiu-se. Ainda preocupou-se em girar o trinco e atacar a chave pelo vão do chão. Era um sinal claro de que ali não mais voltaria. A casa fria despedia-se então do ar quente dele.

    Há dias que os dias já não eram os mesmos. Desde que perdera o emprego chegava tarde da noite para meu descontento, subia cambaleando as escadas, deitava ao meu lado com o suor de álcool e ali roncava até a hora que desconheço. Ao menos, se naquelas roupas de cama não impregnasse o cheiro, seria uma lembrança a menos da situação. Mas nem por encanto algum uma ducha antes de deitar-se, o bafo da pinga ardida escovar-se, nem um ‘boa noite’ ao vento.

    Talvez por fracasso de esposa - não o apoiei, nem dei força - o homem de quem falo acomodou-se nessa vida. Consciente do erro, mesmo assim, não sobrecarregarei sequer uma culpa.

    Entre esbarrões nos corredores da casa, discussões rolavam pelo chão. Incontáveis, aliás. O nervosismo vinha à tona, o desgosto amargava a garganta. Não era mais possível a vivência no mesmo teto, na mesma cama. Quando há atrito, há desgaste. E, nessa troca de palavras gélidas, na agressão além da física, um outro calou-se. Parado defronte a mim nesta sala trêmula, com a porta em suas costas desejando-o, ele virou-se, nem olhou de volta... Comemorei com um choro.

  6. 12 May 2010

    Recíproca

    Lavo as mãos e as enxugo mais tarde...

    Essa inequação que existe entre suas vontades e meu querer propõe um novo modo de pensar. Já que para você, nossos valores estão além do que parece, por que é que não agimos conforme tudo indica? Tantos erros triunfantes que erguemos e fizemos questão de nos orgulhar. Há algum outro motivo sem ser seu desinteresse?

    A cor de seu cabelo desbota a cada quinzena e o meu apego diminui a cada madrugada. Não espero repetir palavras, mas já não tenho medo de mais nada. Aconteça o que for melhor, eu sem você (você sem mim), já me conformei em ter tantas incertezas. Pois até em encontros, nos desencontramos. Há quem diga que ainda somos os mesmos: só se for para você. Fartei de esperar um sinal de esperança. Ao menos, não me alimentei com nenhuma.

    Se nem a mim sinto dono, achas que posso ser sua posse? Vou me domar melhor numa próxima vez. Lavo as mãos e as enxugo mais tarde.

  7. 03 April 2010

    Em meio a pensamentos

    Capotado

    Saia, em meio a pensamentos vagos, veloz. Fim de tarde, o expediente expirara-se, o trânsito fervia. Não sei aonde tão veloz ia se ao menos podia acelerar o carro. Tentava, em meio a pensamentos vagos, um vão espaço para que chegasse em casa mais cedo. Tentava em vão.

    Era sempre assim: tempo gasto que não voltaria jamais. O trânsito era rotina após horas de trabalho. Talvez até mais rotineiro que a velha mania de acordar cedo, engravatar-se, sentar atrás de uma mesa de escritório e fingir ser importante para a empresa. Um café entre e-mails respondidos e telefonemas.

    Mas, num dia atípico feito magia vindo de um furacão feroz, saiu do trabalho e não encontrara carros em nenhum lugar. Ouvia silêncio no seu mais literal significado. Procurou por todos lados um farol aceso, um ronco de motor, um motorista estressado; não encontrou nada. Um dia perfeito, ainda que atípico. Chegaria em casa cedo, pois tinha espaço para acelerar o carro, testá-lo em sua maior performance. Carro novo viciado com o trânsito, mal sabia o que era correr.

    O homem curioso com o que via acontecer, entrou em seu carro ansioso. As ruas vazias tinham cheiro de asfalto ao invés de fumaça. Conseguia até reparar no branco das faixas de pedestres, no verde dos semáforos que permanecia inalterado. Tudo calmo!

    O homem ansioso com a chegada, acelerou seu carro curioso. Fazia curvas em perigo, ignorava as placas das avenidas. O seu limite era incógnita. Queria ter de volta o tempo gasto no trânsito como se aquele vazio fosse a recompensa. Mas, num dia atípico feito alegria vindo de uma tragédia, capotou o carro do homem e preso sob as ferragens agora conseguia ouvir a multidão, o barulho de buzinas, de motores. Sentiu que o encanto da miragem havia partido.

    Em rápida lembrança pensou no filho que estava em casa esperando-o para a janta. Lembrou-se da infância, da escola, dos professores. Fez milhares de perguntas em tão míseros segundos. Havia sentido tanto estudo e conhecimento se ali tudo havia perdido? E os amigos foram apenas para desmistificar o acaso? O dinheiro na poupança rende para o futuro dos outros? Não sentia o corpo. A sirene soava ora perto, ora longe.

    Conseguia, enfim, ouvir o murmurinho das pessoas comentando sobre o ocorrido. De fato, quase intraduzíveis mas sabia que era por aquilo que eles estavam ali. Refletiu, em meio a pensamentos árduos, talvez até tarde demais, que o trânsito servia para manter a risca, não sair do traçado. Este fazia do limite uma certeza. A certeza de que chegaria em casa seguro, mais cansado e estressado, mas seguro. Para rever a família e jantar unidos. Para acordar no outro dia e enfrentar a rotina do trabalho, ou melhor, do trânsito.

    E naquele fim de tarde, num dia atípico, findava também a vida de um homem. 

  8. 06 March 2010

    Bate forte, quebra a alma

    Bate forte, quebra a alma

    Eu saio com os demônios de final de semana; escrevo canções nunca cantadas por ninguém; converso teorias mal elaboradas com os mais próximos; beijo bocas quando convém (ou quando vêm) e, cuspo no chão quando com nojo. Eu decepciono admiradoras secretas, sou flexível e tolerante até demais. Guardo segredos do mesmo modo que ninguém guarda, acho o virtual bem mais fácil e muito mais desumano, apesar de parecer sincero. Gosto das rimas que não rimam e de gargalhadas engasgadas ao redor da mesa. Falo de mulher quando acaba o assunto. Falo com mulheres para ter assuntos. Misturo poesia com a bebida e acabo falando de futebol. Sou um para uns, outro para outros. Já tive uma história de amor que virou uma piada. Tenho uma história de amor que é uma piada. Aliás, sou uma piada quando convém (ou quando vem).

  9. 27 February 2010

    Alegoria

    Rua sem saída

    Dentre todos nossos planos e pressas, ficou a promessa de que viveríamos mais. Sem contar com nossas escolhas que pareceram certas, mas como sempre, o certo se desfaz. Se não bastasse, a insegurança tomou tuas mãos, infiltrou-se em seu corpo e lá parasitou. Ainda há esperança doente em seus olhos, implorando ao tempo um amor que nunca amou.

    Eu sei não há regras para se viver. Sei também que não tenho culpa, se o que te preocupa é o que me acalma. As nossas conversas, nem sempre sinceras, provocavam a alma; e disso sei bem, talvez tão melhor que você.

    Não há exagero se o ciúme é cego, pois quando sossego é a hora que menos descanso; procurando em você marcas de um outro encanto. Assim é meu zelo, logo após o meu pranto. Não pela traição que eu via, mas pelo traido que era manso.

    Dentre parágrafos de confissões e convites para facas e garfos, ficamos a sós e sozinhos ficamos. Cada um em seu lado, cada lado em seu canto. Com os pratos vazios, com o vazio das palavras. Há quanto tempo não conversávamos? Quanto tempo não conversamos!

  10. 16 February 2010

    Rua sem saída

    Rua sem saída

    Quando menino, meu mundo fazia mais sentido. O vento soprava mais forte, a pipa voava com mais graça no céu; na rua havia gramas por entre os paralelepípedos e os cachorros só latiam quando ouviam o barulho de buzinas cortando o ar.

    Hoje parece tudo tão cinza. Com o vento veio a poeira que cega os olhos, para a pipa o céu pesado de chuva sempre; na rua, as gramas ficaram por baixo do asfalto quente e os cachorros latem por ver crianças correndo nas calçadas.

    Mas os vizinhos, esses parecem nunca mudar; sempre reclamando do barulho da criançada e, da bola na parede e, da bola na vidraça e, das pipas enroscadas nos fios de suas casas e, de qualquer coisa que não os agrada, porém os inveja.

  11. 05 February 2010

    Em meu eterno lugar

    Paraplégico

    Se fosse para acordar outra vez naquele estado, preferiria nem abrir os olhos. Mas, mesmo com o mais positivo pensamento, os braços não foram capazes de se abraçarem; meus próprios braços. Via a luz do dia, lá fora e distante, visitando as frestas da janela suja. Chutes invisíveis tentavam jogar ao longe o lençol suado que ainda me cobria. Seguindo a iniciativa, acordei no mesmo estado.

    Era carnaval em um sempre curto fevereiro. Do ano sei que faz quase década. Estudante em Rio Claro, curtia a vida pela primeira vez longe dos pais. Bebia, fumava, tatuara "carpe diem" nas costas finas. Era assim, fazia tudo ao mesmo tempo sem se preocupar em surtar. Pois bem, era carnaval.

    A agitação certeira acertou-me em cheio. Multidão fantasiada, uma festa que só o carnaval proporcionaria. Mulheres e seus corpos suados dançando sobre palcos improvisados, instigando o desejo masculino, alucinando ainda mais a multidão. Álcool é o que não falta e o que não pode sobrar. Aos montes, os goles descem pela garganta e a reação sobe por entre as veias. Repeti-los por inúmeras vezes. Enfim, a certeza da agitação encheu-se.

    Em duas rodas, um homem vinha em alta velocidade. Ali não havia multidão, apenas um garoto insanecido, tonto demais para medir o perigo. Cambaleava feito um manco recente, havia curtido bastante a noite em sua mais perfeita maneira, só sua. Não escutou ronco de motor, não ouvira buzina alguma. Queria atravessar a rua, ainda que a vontade fosse deitar-se no chão. Irresistivelmente atravessou! Uma só pancada, duas vidas nunca unidas para sempre separadas. O motoqueiro deitou-se no chão em sua infinidade. Eu, em meu infinito dessa vez, sentei-me em duas rodas.

    Se fosse para voltar naquele tempo, preferiria nem ter ido longe. Fugi das asas de meus pais para agora viver perto deles para sempre. Só ter um raciocínio, incompreendido por todos. Minha nova vida privou-me dos meus movimentos, de cambalear feito um manco recente. Não exclamo, não escrevo, apenas raciocino, tramo uma maneira de voltar no tempo, de ir para longe.

  12. 24 December 2009

    Uma carta - a decisão da escrita

    Escrevendo uma carta

    [...]

    E mais uma vez chegamos ao seu prédio, aqueles mosquitinhos chatos zanzando sei-lá-o-porquê bem em frente aos elevadores e você subindo as escadas rumo aos caixotes das cartas recém-entregues. Eu acompanhando como se já não soubesse o que você diria e, mais uma vez, agachava, puxava a gaveta e só encontrava cobranças ou propagandas.

    - Ainda não chegou nenhuma carta sua, Rafael – soava como uma desfeita – Não tem declaração dentro de nenhum envelope.

    Eu só observava seu corpo voltando em minha direção, meu pensamento indo longe tentando buscar algo para dizer, mesmo que fosse uma piada sem graça. Suas mãos cheias de envelopes e minha voz sem som. Confesso que ali, meu raciocínio travava, mas depois, bem depois, rebobinava as cenas em minha cabeça e perguntava mentalmente:

    - Por que não escrever uma carta?

    [...]

  13. 20 December 2009

    Inatingível

    Crescendo

    No peito, acelerado feito trem sem paradas, bate meu coração. Pulsará até o fim dos meus dias, até o fim. Crente de que crescera; amadureceste como fruto em árvore, sofrendo com a chuva e o vento gelado. Junto dele, acompanha a mente. Hoje mais matura, também. No seu breve raciocínio concilia batimentos com reações, olhos com paixões. Porém, ainda resta muito. O ponto de equilíbrio é o exato ponto do êxito eterno; traduzo-o: inatingível. Sou ainda mistura de emoção com perfeição. Abaixo, bem abaixo das expectativas.

  14. 13 December 2009

    O caminho de volta

    O caminho de volta

    [...]

    Eu já não aguentava mais ficar trancafiado naquela sala. Sabe que ali, às vezes, parece um inferno? Quando o telefone decide tocar é uma ligação atrás da outra e por motivos que até Deus duvida. Resolvi bater perna e dar uma volta pelo hospital. “Por que não visitá-la?”, pensei.

    Sei que já eram quase seis da tarde, hora de deixar o trabalho para o dia seguinte, e além do mais, era época de recesso das aulas. Sabia que você morava perto de mim, que teria de voltar para casa em algum momento, que poderíamos muito bem voltarmos juntos e... que... uma pitada de coragem seria necessária.

    Naquele instante eu tinha minhas segundas intenções. Aliás, não só ali. Já havia algum tempo que Daniela se tornara obsessão. Pois bem, decidi vê-la.

    Papo foi, papo veio e...

    - Podemos voltar juntos hoje, né? – falei com uma tremedeira por dentro.
    - É... sim. – pensativa, disse.

    A verdade é que não lembro muito bem como é que foi o desenrolar da conversa, nem mesmo sei a maneira que ela respondeu. Só sei que a sorte estava lançada e algo que eu queria estava próximo de acontecer (ou não).

    [...]

  15. 07 December 2009

    Fecho a janela, proibo minha leitura

    Fecho a janela, proibo minha leitura

    Preciso de silêncio. Apenas o som da respiração deste nariz entupido pode denegrir este momento e, claro, o deste lápis que está a riscar o papel. Enquanto exijo concentração, presto atenção no vento que entra, no vento que adentra meu recinto. Perco o foco, me afogo!

    Rebuscando aquilo que havia perdido, tiro os óculos e expremo os olhos como que adiantaria. As palavras não vêm do além, exige esforço, paciência, esforço, paciência, repetição e conhecimento... Numa boa escrita emprego a vírgula, culpo o travessão e demito os erros. Justa causa? Nem sempre; às vezes, também, erros passam despercebidos, sequer recebem punição. Faço a releitura, um telefonema entre frases, acentuo, faz frio, fecho a janela, apago o que não agradou.

    Pois escrevo porque sinto o bem. Sem importar se sou lido, se dou riso. Apenas dedico de mim, o que possa servir para outros, o que é parte do que sou. Algo que seja coerente, apreciado, precioso... E nunca, de maneira alguma, mesmo com a mais indelicada persuasão desencantar-se pelo que escreveste. Contanto que tenha sido feito com vontade, com o coração; é impossível, incapaz, desgostoso não firmar chão com as palavras escritas.

    Reponho aquilo que havia encontrado, forço os olhos contra o papel, recoloco os óculos. Palavras interpretadas são fantasias, faz voo, crescimento, traz cura... Numa má escrita desemprego o autor, critico, argumento, proibo minha leitura. Injusto? Com certeza não; sou exigente comigo, exijo o treino, a beleza, meu riso sincero. Refaço mentalmente a estrutura, vejo a briga entre frases, levanto, faço birra, rasgo o papel. É amargo o que desagrada.

  16. 26 November 2009

    A sorte desbota a cor

    O Preto é negro!

    Era menino e nascia num dia sem sol, num eclipse constante. No cartório: Samuel Tobias da Silva, mas é o Preto desde pequeno. Não tinha nome, apenas cor. Até mesmo dentro de casa, seus pais confundiam seu nome com a ausência de cor do escuro. Dentro da casa não tinham lâmpadas, os poucos jantares eram todos à luz de velas. Como esclarecido, por falta de opção. Ali não tinha Jornal Nacional muito menos video-game. Era um eclipse constante...

    O Preto cresceu em meio a caminhadas até a escola, subindo, descendo, se arrastando em ruas de lama. Os outros iam de carro pelas avenidas de asfalto. Trabalhava desde os seis anos nas colheitas das fazendas vizinhas. Os outros esperavam seus pais chegarem do trabalho. E nessa sequência de diferenças, o Preto via sua vida abatida e derrotada. Era corpulento, sem corpo lento; forte!

    Seus pais o encorajava. Dizia que um dia o rio que corria por dentro de sua terra viraria piscina de água quente, a grama seca e sem cor cresceria viva, que teria bons amigos para dividir os prazeres da vida. Aliás, os amigos ele tinha vários, mas nenhum, de fato, era amigo dele. Uma mutualidade solitária! Seus jogos de futebol envolviam uma bola de meia e duas árvores de galhos tortos. Era o maior estádio do mundo, com certeza! Mas logo esquecia da brincadeira, pois partia para o trabalho.

    Ia bem na escola; digo como bom aluno. Era Preto até para os professores, mas não era referência para nada. Para as festas de aniversário, não era nem lembrado. Nas comemorações de final de ano na escola era sempre convidado para ser o Saci na peça teatral. Um convite irrecusável, irrisório!

    Mas como uma chuva de verão, um tiro de bala perdida, algo inesperado atingiu aquela casa pobre e sem luz: a sorte. Ela veio em forma de números. Seu pai ganhara na loteria. Um bom dinheiro, muito mais bem-vindo, aliás. A casa esbanjava alegria e cor. O, até agora, Preto era sorriso de orelha a orelha. Seu campo de futebol virava realidade em sua mente, muitos torcedores acenando suas bandeiras. Agora sua raça ganhava um nome: Samuel Tobias da Silva, mas era Samuca desde então. Frenquentava festas com os amigos, era o príncipe na encenação.

  17. 14 November 2009

    Agosto em desgosto (ou quando preferir)

    Ê soninho bom!

    No frio da madrugada de hoje, ninguém escutava o barulho de pneus velozes na avenida, só a respiração profunda do meu irmão na cama ao lado; podia-se ouvir também o cachorro bebendo água no quintal; no quarto totalmente escuro, o despertador marcava duas e quarenta e oito; a janela de alumínio estralava de minutos em minutos.

    Cobri a cabeça e fechei os olhos. Uma moto solitária rasgou o ar na avenida e, mais um estralo da janela. A inquietação tomou conta de meu corpo como um demônio, eu virava de um lado para o outro, tentando uma posição cada vez mais confortável. Encostei minha cabeça na parede e comecei a viajar na imaginação: o vizinho ficou preso no portão tentando passar por ele quando estava fechando, de repente, virei herói quando salvei uma garota caindo de um prédio, logo após, eu já era um apaixonado entregando flores à amada.

    E fui voando entre as salas da imaginação até que te vi morrendo. Decidi não mais pensar em nada, mas isso era impossível. Abri os olhos: o mesmo quarto escuro; no relógio já eram três. Fechei-os e cobri a cabeça.

    Estava frio demais, parecia que a cidade inteira dormia, menos eu. Voltei a me concentrar no sono; do nada, eu já era dono de uma empresa conceituada, casado com a menina dos meus sonhos e levando os filhos para o zoológico. Vaguei até que pensei num suicídio. Evitei pensar em mais nada. Logo depois, eu já não lembro, devia estar dormindo.

  18. 08 November 2009

    Como morri de amor?

    A força do amor

    Digo que não sei. Hoje, já morto, posso contar detalhes, mas ao certo, nem de perto, senti dor.

    Começou num piscar d'olhos e, por mais que tentei o controle, tomou posse dos meus sentidos, dos meus instintos, de mim. Vagarosas eram apenas minhas atitudes; o resto pegava fogo, acelerava. Era o primeiro sintoma! Como conseguiria fugir dessa aflição? Não que eu quisesse, mas o medo existia. Ele sim queria a distância. Enfrentei-o.

    Com o passar dos dias, com o pesar dos passos, o que antes só queimava transformou-se em erupção. A vontade de sempre estar ali, olhando o que até então era utopia, não era passageira. Eu contava as horas, sabia todas suas manobras, seus trajetos, perseguia seu cheiro. Mais um sintoma viria: a obsessão. E não, não era a toa.

    Ainda tímido e quieto, sofria em vê-la e não tocá-la, sorriria ao tê-la e venerá-la; mas, e mais que isso, faltava coragem. A inércia era constante. Quando essa covardia vira empecilho é porque mais um sintoma está explodindo. Homens receiam tocar em suas musas, são obras feitas para admirarem, não para se terem. O sintoma do impossível entra em questão, te põe em pane.

    Ao perceber que este é somente uma pedra e não um muro, o sintoma perde força... perde força... perde força e some. Curado dessa dor que nunca existiu, sua visão parece nítida, sua auto-estima supera qualquer obstáculo, não há descrença nem quem te vença. Existe apenas o óbvio: uma paixão... não correspondida. Pois bem, mesmo num mar de rosas ainda há sujeira.

    Precisava declarar-me, descobrir sua consideração por mim, sobre o que faço, sobre o que sou. Um sintoma sem nome, pois não existe enquanto não houver resposta. Um sim ou um não, um talvez nunca pôde. E assim, na penumbra da noite, na caminhada sem sol, contei o que queria, fiz o que podia, a tive em meus braços. Um novo sintoma velho retornou bravejante: uma paixão, enfim, correspondida.

    Desde então sou dependente, um vício prazeroso. Dez dedos nas mãos não eram o bastante, precisava de abraços de outros dedos. O perfume, de longe, não saciava mais meus desejos; eu quis ser o colar do seu pescoço, quis ser os pelos de seu corpo para todo eu me arrepiar. Senti reciprocidade, um amor verdadeiro. O mais forte e tumultuado dos sintomas, agora me matava, ia até o gozo e voltava. Nem o mais robusto coração aguentaria, é algo que vem para te levar. E em meu mantenedor, não só pulsava o sangue como também enfrentava a chagas; uma doença sensível e insensata, que é do bem, que te dá vida, mas que te mata.

  19. 28 October 2009

    Deparei-me incapaz!

    Cérebro

    E deparei-me incapaz. Meus pés perderam a sincronia, meus passos não seguiam rumo algum, senti meu raciocínio deparando-se com um alto muro de concreto, daqueles que separam presidiários do mundo exterior. Por hora ou outra, alguns impulsos tentavam subir pelas paredes, mas sempre paravam nas cercas elétricas. A boca trêmula não sinalizou os olhos a volta, mas me assustou. Deparei-me incapaz! A voz frouxa, sem certeza, desgovernada. O eu trouxa, sem destreza, uma desgraça. Estranho é sentir o sangue quente e as mãos geladas; até os dedos não sabiam quem eram.

    Sem mente, um estrondoso som de nada soava neste imenso vazio: um vácuo movido pelo vapor de neurônios. Cheguei a um ponto oneroso, como se os sentidos perdessem a direção e o perigo maior fosse uma flor de plástico. Tudo era afasia! Momentâneo, mas me assustou. Deparei-me incapaz! Mas mais que tudo, sobre tudo o que sei de mim, obtive controle, obtive auxílio, obtive...

    Retornar à superfície quando a respiração já está afogada é indícios de morte. Eu ainda inspirava, expirava, inspirava... Era questão de fechar os olhos, esquecer do mundo, olvidar de mim. E subitamente, quase que incapaz, deparei-me encantador!

  20. 25 October 2009

    Nem heroi nem rei

    Fada

    Agora eu era alguém. Deixei de ser pequeno, deixei de ser heroi, a imaginação cansou. Um homem diziam que eu virara. Não que eu sinta-me assim. No auge da minha idade descobri que um rei manda mais do que pode. Deixei esse pensamento de lado e mantive a minha imagem de grande. Enfrentei multidões e fiz minhas próprias leis. Não queria seguir as ordens de ninguém.

    Agora eu era quem bem quisera. Nasci miúdo, cresci matuto, virei maduro, tornei-me seu bicho preferido. Em outros tempos, quando nem eramos nascidos, como é que se inventavam o faz-de-conta? Ainda leio-os como se fosse criança mimada, ainda tenho-os como que teremos filhos. Pois quando for, se é que irá, deixe um aviso pendurado na porta; não quero voltar ao tempo, perder a cabeça e não saber o que a vida fará de mim.

  21. 08 October 2009

    A sensação de liberdade

    Cachorro

    Como se nunca fosse voltar, partiu. Sem olhar para trás, sem medo de morrer nas esquinas. Bravo e bravejante, seus passos não sabem por onde andam, mas decoram o trajeto e marcam o asfalto. Alto, bem alto, era seu grito não entendido. Parecia grande entre as pessoas, elas abriam caminho, ele partia sozinho. Em velocidade como um texto de um só parágrafo, ainda sem olhar para trás, não tinha alvo, só queria distância. Ânsia e ansiedade, seus olhos não sabem o que veem: paisagens sem cor. Corria desesperado sabendo que logo mais voltaria. Era só questão de aproveitar enquanto a liberdade existia...

  22. 27 September 2009

    Um mundo vestido de branco

    Pés Descalços

    Ao andar esqueci de calçar os sapatos. Fui sem proteção; tão empolgado que meus pés nem reclamaram. Via a penumbra de seu corpo ao longe, ainda vestido, coberto com um jaleco branco costumeiro. E nem era sonho! Até pouco tempo, não via nada diferente daquilo: um sorriso combinando com o vestuário. O andar andou depressa, eu corria e parecia nunca chegar. E era quase um pesadelo! Por que quis te alcançar? Quase nem percebi que você transformaria-se num mundo. Um mundo vestido de branco; meu novo habitat. Pois se hoje moro em ti é porque ontem perdi as rédeas, ganhei coragem e caminhei contigo num trajeto interminável. Havia esquecido os sapatos, mas ao certo, o juízo é que ficara em casa. Mas tudo bem, por vez, na sua casa eu me reencontrava.