Cresci num bairro chamado Vila Charlote Ema (quase periferia de São Paulo) e de lá até o centro, uma das opções que tínhamos era seguir o trajeto que passa pelo Cambuci. Pois bem, Cambuci é, por sua vez, o bairro que criou e amamentou a arte d'OSGEMEOS. E toda vez que até o centro eu seguia, nunca reparava nos muros e paredes enquanto estava no aperto do ônibus. Porém, entretanto, todavia, uma amiga de longa data, Ana Clara, acendeu minha atenção para certos desenhos e então tudo que eu via eram grafites durante caminho. Ela me apresentara o trabalho d'OSGEMEOS, algo que é impossível não se impressionar. Desde então, mesmo que remotamente, acompanho a obra dos dois irmãos que já rodaram o mundo todo, mas que poucos brasileiros conhecem.
Hoje tive a sorte de visitar a exposição Vertigem, d'OSGEMEOS, que está rolando no Museu FAAP desde o fim de outubro e repito que é impossível não se impressionar. Aos olhos de qualquer pessoa, aqueles desenhos simples aparentam traços fáceis da qual até você arriscaria rabiscar, mas por detrás daquelas expressões há tanta técnica, tanto detalhe, que somente a proximidade é capaz de te mostrar. É por esse e tantos outros motivos que o trabalho d'OSGEMEOS é fascinante, um retrato bem elaborado de como é o Brasil, de como vive o interior de cada casa neste país.
Segue texto impresso no folheto da exposição:
OSGEMEOS NO MUSEU
A obra plástica d'OSGEMEOS saltou dos muros urbanos para o restrito circuito das instituições de arte contemporânea ao redor do mundo, desde exclusivas galerias até seletos museus. A dupla pode ser identificada pelo estilo próprio de sus figuras. Ao manipularem a lata de tinta spray, ferramenta tradicional das grafitagens. OSGEMEOS obtêm um traço super fino e uma técnica de sombreado inovador. O efeito é conseguido pela pressão suave de um bico com oríficio pequeno, por vezes adaptado de outras latas de aerossol. O jato é aplicado a uma curta distância da superfície. Seguem-se duas características: uma linha fina de contorno e uma aspersão de gotículas marginais à linha, que criam o efeito de sombreamento das bordas da figura. Nesse processo de pesquisa da duplia, estabele, também, o uso do amarelo para a pele dos personagens, que, em contraste com o vermelho açaí do contorno, enfatiza o efeito de volume. Como o sombreamento circunda toda a borda dos elementos pintados com o bico do spray, cria-se um efeito ilusionista de volume da figura.
Ao entrar no museu, a produção d'OSGEMEOS abandona a vida urbna para habitar espaços protegidos da alta cultura. O contraste entre o universo dos personagens e o caos urbano é substituído pela experiência de um mundo fechado em si mesmo. Assim, o visitante parece penetrar no mundo lúdico dos irmaos, chegando a um local fantástico habitado por personagens amarelos. A composição bidimensional abre espaço para objetos instalativos, como se os personagens tivessem saltado das paredes; agregam-se mecanismos cinéticos e diversos acabamentos para as superfícies, como paetês, espelhos etc. Mesmo as pinturas ganham novos suportes, como portas e janelas.
A experiência das ruas permanece como elo entre as duas esferas de produção d'OSGEMEOS. A chegada atual aos museus abre novos desafios para a dupla: como preservar a potência da figuração urbana, mesmo em ambientes protegidos? Gustavo e Otávio buscam continuamente novas formas de produzir em circuitos extra-artísticos, como festivais, onde o confronto da obra com o público mantém o desafio de inserir a fantasia no duro cotidiano do mundo no trabalho.
Por Felipe Chaimovich
Aproveite que a entrada é franca, chame seus amigos e vá se impressionar. Você tem até dia 13 de dezembro!
O flickr da Ana Clara é, talvez, o maior acervo de grafites da cidade São Paulo, dê um clique aqui e viaje nesse mundo.