Mais uma hora no relógio.
mais uma lógica sem sequência.
Quem muito diz, mais reclama;
se pouco faz, diz mais ainda.
Alguns minutos para o relógio
soar a hora que menos espero.
Hora de ir embora, de dar adeus;
nos despedirmos sem nenhum beijo.
Estranho ver nossa mudança;
de casa em casa, de comportamentos.
Da cama ao banho, nada que eu sinta.
Um sentimento nada sincero.
Não mais suporto nossa desavença.
Se é que há. Há quem entenda?
Nosso problema sempre foi brincar demais;
e na seriedade continuar na brincadeira.
Nossos nomes correram nas bocas
mais malvadas de nossa vila.
Não sei o porque, nem a maldade,
nem de mais nada entre nós.
Porém enquanto fazemos nossas vidas;
todos acumulam idade, fofocas e rugas.
Achando que o prazer não é certo,
que nem é verbo e que não se conjuga.
Agora me atraso de acordo com o relógio.
Ponteiros cansativos, tontos por girar.
Vou me embora... me despedindo...
Surpreendendo-me com nosso destino.
No asfalto duro e quente e sóbrio
teus pés, pernas e corpo flutuavam.
Era difícil alcançar teu rosto, amiga,
enquanto o lamaçal corroia meus artelhos.
Lembra de quando não tínhamos chances
de dizer o quanto adorávamos um ao outro?
Foi bom te rever tão melhor que eu:
meu corpo tão maior no tamanho,
tua descência no pico do indescente.
Vamos sair e caminhar contra o vento?
Sem destino algum, sem passos juntos.
Deixar que o mundo nos veja crescidos,
e que por fim, possamos gargalhar de tudo.
E riremos das pessoas ao redor,
e riremos de nós mesmos.
Há o que não cansa, isto é que procuro:
um conforto que confronte os apuros.
Toca uma música sem dança, destrói o silêncio,
silencia o que penso, sinaliza uma análise.
Machuco sem força extrema e sei que dói;
pois em mim vive uma sede antiga,
que transforma em ferida
o que em ti é algo maior.
Haveria nó nem trança, não sinto-me como deveria.
Se na sua companhia fico bem,
em ausência creio que estou melhor.
Ver teu sofrimento por decepções seria o começo do meu.
Torço pela felicidade conjunta (mesmo que nos separe).
Não fale, não ore; certos discursos dispensam as crenças;
assim como um corpo fraco acaba sendo convite para doenças;
em mesmo grau toda diversidade tem um lado ruim.
Antes mesmo que o dia acorde
e seus olhos nefastos percorram
os quatro cantos do seu arredor,
alguém tão superior e importante
não tivera capacidade,
tão como insanidade,
de perder-te na memória.
Não que insistira que assim fosse:
és parte do todo, és vice-versa.
O esforço é invisível, mínimo.
Antes mesmo do dia deitar-se,
sua cabeça foi, voltou, não saiu do lugar.
A supremacia esteve lá, não sabe-se onde,
mas a lembrança em ti era presente.
Um prezar por um zelo distante...
dos seus olhos que agora dormem.
Não fora capaz, tão pouco insensata,
em largar-te no mundo por vontade própria.
Pois nasceste para pertencê-la: és tua dona!
A única com suficiente força, pois és mãe.
Quando nossos corações se juntam,
ainda que cada qual em seu corpo,
ouço um sussurro no pé dos ouvidos.
De tão mudo é quase um silêncio.
Vem de longe mas está entre nós
esse sopro de som feito café com pão,
café com pão e segue e não para.
Neste abraço terno (que junta corações)
até o infinito rende-se ao tempo,
faz deste único momento o infinito de nós dois.
Existe entre você e eu um mundo a zelar,
pois há futuro onde não há descuido.
Descuidos são corações que se separam.
Mas estes corações que se abraçam
são os mesmos que levam pouca gente?
São corações, neles toda gente é pouca.
Toda gente é pouca... toda gente é pouca.
Neste abraço eterno que espanta solidões,
até o perigo pendeu-se ao vento,
fez do voo um pouso longe de nós dois.
Pois faz silêncio dentro desse quarto abafado,
fedendo bafo de canela com suor de sapato.
Do escuro então, surgia a luz incandescente.
Quem deitado estava, agora está corrente...
pensativo era eu, na tarde madrugada clara
querendo rabiscar os versos que sempre apagara.
É fogo de palha como nunca ninguém viu;
uma vontade em volta de perigo e por um fio.
Corta o silêncio desse abafado quarto,
num papel sem pautas, o grafite arrastado.
Se as idéias em mente não parecem o que são,
e um diploma na parede nem esboça reação...
eu diria assim mesmo: "Não preciso de tática.
Os erros de português aprendo em matemática;
e a filosofia da vida, quem ensina é a sorte.
Porém, por culpa em ninguém, ainda te faz mais forte."
Pausa no ruidoso quarto quente,
a mão inquieta e insistente
em escrever as rimas sem rimas
que rimam com as palavras acima.
Deita e dorme, criança.
Já é hora de alguém do seu tamanho
- que quase tamanho não tem -
estar no terceiro sono da mesma noite.
Dorme logo! A manhã do outro dia vem rápida.
Enquanto acordado não pode sonhar de graça
(de os olhos abertos tudo tem preço).
Feche os olhos e então tudo é surpresa e possível.
Durma agora que a chuva inquieta ajeita seu sono,
Aproveite esta cama pequena que te faz grande, menino.
Seu mais eterno e perfeito e só seu trono.
E antes que eu me esqueça: Durma, criança.
A noite é menina e pode crescer,
perder a inocência sem sequer perceber
e fazer da manhã uma sequência de vida.
Eu e meu falso poderio de homem,
inquieto na busca por prazer
que os tempos áureos exigiam,
colecionei a inevitável ira...
de algumas.
Que daqui a pouco, enquanto ainda louco,
esteja longe de mim este orgulho canalha!
Minhas ambições encorporadas em fogo de palha,
sempre enganavam, só enganavam, só enganando...
minha pessoa.
Talvez o tratado fosse este mesmo a elas:
cada acontecido é também um recomeço.
Ainda conservando-se como preciosas pepitas,
nem sempre o que o corpo quer,
o coração evita.
Novamente a velha encrenqueira
bate à porta do meu coração.
Faminta, adentra o recinto
como se fosse dona, sem perdão.
Ficará até sei-lá-quando,
reclamando e querendo atenção.
Faço de conta que nada existe:
eu disfarço, ela persiste.
Mata-me dia sim, dia não.
De tão irritante a velha,
que tudo quer tudo invade,
nomeei-a de prontidão.
Pronto então, Saudade?
Estive fora por algum tempo.
Quanto? Ao certo nem lembro.
Pois botar a casa em ordem
exigiu esforço, dedicação.
Uma casa que ainda não tenho,
mas estou a procura: terra à vista.
Oculto o segredo, mas já é uma pista.
Estive por andar nas linhas...
de minhas próprias mãos
e, como sempre e seguindo,
me perdi nas curvas sem fim.
Estive fora por um bom momento.
Perco-me no mundo. Não perco o sentimento.
Tive de organizar prateleiras,
revistas e jornais velhos ao lixo.
Dei férias aos poetas que riem de mim.
Eles sempre dão canseira...
Nem bem amanhece o dia,
no rosto exausto a alegria:
É sexta-feira! Estou de volta!
O céu todo azul fez-se cinzento com o poder das palavras:
"Vai chover." - era o que dizia com voz trêmula e incerta.
Ao certo, não sei porque tanta água caia nas minhas costas
estreitas. Coitadas! Ardiam feito chama em couro, fogo em pele.
A cada golpe desviava o olhar molhado de vossa estupidez.
Mais tapas, mais ardência em meu corpo. Ardor que doia!
Não era como o amor. Ardia e eu via tal dor. Ardia!
Seu céu pesou em meus ombros. Tempo ao tempo...
Ainda espero, já cansado. Quando nossas vidas decidirão
se encontrar? Sentei, deitei, levantei, chorei em pé.
Pesado ainda era meu corpo. Pensava: "Tanto desgasto."
Vida, sou eu. Acordei e vim visitá-la. Não trago presentes;
não trago vestígios; não trago segredos; não trago nem fumo.
Só trago restos de réguas quebradas. Milimetradas! Metrificadas!
Mastigadas! Minimizadas! Sem tréguas, sem regras, sem marcas.
Trago a chuva ácida que corroe minhas costas vermelhas.
Vida, trouxe o céu azul de volta. Eu trouxe alegria;
planto tristeza em solos não férteis. Maltrato minhas costas!
Mesmo entre granadas e pavis,
esteve erétil e firme e formosa.
Não perderia sequer uma aposta
de tamanha certeza que quis.
Sem apelo, talvez encarnando atriz,
zombaria dos demais guerrilheiros,
esquecendo-se daquele grande apreço
que guardava pelo guerreiro Luis.
Ah... se arrancasse o mal pela raiz!
Sorririam, enfim, os lábios de dentes amarelos
camuflados no ouro da guerra de flagelos,
da guerra qual era única meretriz.
Pudera pernas e braços tão viris
desistirem do corpo, da coragem?
Pois bem, os moços seguiram viagem,
ela, ali, seguiu infeliz.
Sumiram os guerreiros e seus fuzis
E antes que eles te contem:
há muito hoje para tanto ontem
e ela, ali, seguiu sendo Íris.
Hoje a curiosidade é um crime,
pois na ousadia d'um clique
alguém vai te notar.
E mesmo que crime não fosse,
já nos conhecemos antes mesmo
d'eu te encontrar.
Então, diz que nosso encontro
foi para somarmos pontos
e no mesmo time jogar.
Se escrevo com letras bonitas,
há um sinal na escrita
que vou te contar:
- Sempre que bonitas letras
preenchem tortas linhas retas
é porque estou a errar.
E mesmo que crime não fosse,
já teria te tomado posse
e com rimas remar.
Então, não diz que somos fúteis
por apenas parecermos inúteis.
Deixe o tempo passar!
Se escrevo com letras garridas,
há um sinal na escrita
do qual não posso falar.
Até que a preocupação apodera-se da mente
e os pensamentos esvaziam, murcham, somem.
Sinto as dores de uma doença ainda sem nome
e antes fosse verdade dita por gente que mente
do que uma fincada que maltrata o estômago.
Sabe você, nesses instantes há tanto tormento
que o foco diverge e esbarra num raciocínio lento.
Mera prova, ainda sem nome, do quão estou mal.
Dizem que tudo revela-se num filme antes da morte,
mas, sei lá, sinto exagero no ar. É tão para menos!
Sigo! Apesar de tudo os dias continuam os mesmos.
A melhor reza vem daquilo que sem pavor torce.
Viro, reviro, recubro a cabeça,
tento não acreditar. Repenso,
relembro, respiro e desligo o despertador.
Cochilo novamente. Acordo no susto!
Reviro, viro, descubro a cabeça,
tento não acreditar. Tateio o despertador,
procuro botões, quero parar o tempo.
Barulho, barulho, silêncio, cochilo.
Susto! Espanco o ensurdecedor,
viro, reviro, rezo, respiro.
Lembro, relembro, esqueço, soneco.
Soneco... soneco... perco a hora.
Viro, reviro, repenso: segunda-feira.
À disposição dos mais interessados,
vivo a lei do quem procura acha.
Pois, quem quer não muito disfarça,
sou atento a tudo que mal importa.
Tratando-se de dispostos e poses,
misturo o sono com um sorriso tolo
como se um rosto calado não fosse
sinônimo de natural embriaguez.
Lá na casa cheia de almas vazias,
suas vontades juntaram-se com as minhas
e os nossos corpos morreram de frio.
Os olhos secos molham a face agora,
e já passou do tempo de ir embora,
o melhor beijo nunca existiu.
Será saudade daqui a alguns minutos,
nossos planos nunca darão frutos,
fraquejaremos numa próxima vez, eu sei.
Se perco a vida fazendo escolhas
ou subo alto como frágeis bolhas,
foi bem assim que aprendi viver.
Por mim, pode até ser mesmo ingrata,
nossos passos farão um caminho sem graça;
estou disposto para uma mudança de poses.

Quente colo confortável em que deito meu peso;
perco-me nas pálpebras fechadas do meu corpo.
Um navegar de sono! Não vou trocar de trono.
Sou todo seu, colo meu, como nunca de ninguém fui;
é descanso de um cansaço de nada. Cansaço por nada!
Carícia no pé do cabelo cheirando fumaça (de cigarro).
Pobre, suado! De quem falo nesta hora da madrugada?
Hora de esquecimentos! Digo das incertezas; pois,
se repito um erro, é sexta que nos veremos. Colo...
de coxas finas e vestes nuas, escutas minha voz?
Responda com um balançar e volto a fingir que durmo.
É voltar a dormir um sono de nada. Sono por nada!
Estrada minha que corri com os dedos,
segundos antes do começo, seguindo com metáforas
nada rebuscadas, porém ainda, nada de pistas.
Se estas, só em teu corpo estão escondidas;
negra pele Clara de poucos encontros. Funde comigo;
confundem quase sempre. Como saber o que somos?
Desde o primeiro encontro. Da embriaguez ao beijo,
em ressaca um desfecho! Foi ponto de reticências;
porém entre parênteses. Esquecemos grande parte
de uma parte que já sabíamos de cor. Claro que sim...
É sarna! É sangue! É saudade! São segundos
antes do começo. Bebo-te em goles gulosos.
Mordo com os dedos e arranco pedaços de lábios.
Feridas que haverão de se lembrar de mim.
Vem cá, vai lá? Iremos aonde quisermos, amiga.
No vai-e-vem da cadeira de balanço
revejo meu tempo tecido de pétalas (nada) brancas.
Tão imune o passado é em minha mente
que mesmo presente ainda é só lembrança.
Hoje as rugas moram em meu corpo,
mas não atrofio sequer um sorriso contente.
Sou velha. Existo. Tenho muitas histórias.
Então vejo meus meninos brincando e brincando,
insistindo nessa variância infantil.
Ainda pobres da malícia que fariam um dia
despontarem no mundo feito bambu de varal.
Cresceram em uma virada de noite, os dois.
Que dor!
Quiseram fugir da cidade para fugir dos estudos
e também fugiram do trabalho e voltaram para casa;
os três: um, o outro e a mulher de um terceiro.
Deve ter batido a saudade (ou fugiram d'outra cidade
para fugirem das confusões que não fugiram deles).
Até hoje não desmentem nem mentem! Só fingem...
Meus meninos agora são pais tão iguais
quanto aquele que nunca tiveram.
Por azar!
Intrometido que era morreu com um tiro na fuça
na porta da casa velha no bairro do Cajamar.
Só de pensar no defunto a minha voz soluça,
mas o mundo não tão injusto deixou-me dois meninos...
no ventre. Dentro de mim a minha Terra!
Seria mãe solteira e viúva e hoje sou velha.
Tenho muitas histórias porque nunca hesito.
Vejo os meninos dos meus filhos brincando e brincando,
variando nessa insistência juvenil.
Um passo de cada vez - foi o que me disseram,
mas não, costumamente, não levei a sério.
Enquanto tento abraçar o mundo,
por detrás de tudo, o mesmo cresce.
Aí encabulo em pensamentos, travo ideias e
declaro: só preciso de dinheiro.
Sabe, os loucos discutem sobre felicidade,
sobre aquilo que preenche o coração,
mas no fundo é tudo a mesma ladainha.
Insistem em odiar aquilo que eles amam.
Ainda estou travado: só preciso de dinheiro...
e de murchar o mundo inteiro com um furo.
Aí decido fazer tudo ao mesmo tempo,
empolgo e desempolgo e empolgo
tudo numa só fração de segundos.
Acabo como?! Discutindo sobre a felicidade,
pois é, comigo e com minhas entranhas.
E tudo, tudo, tudo acaba em nada.
Um nada único!
Aí deparo com mais uma trava e digo:
só preciso de dinheiro...
enquanto ainda não preciso de remédios.
As'oreia du minino,
suja de cera d'ouvido,
escutavam atentamente a conversa
do casal ao lado.
As'oreia grande du minino.
Grandes mesmo!
Escutavam surdamente a conversa
dos políticos na TV.
Minhas'oreia, suporte d'óculos,
não escutam nada quando querem.
Na terra do petróleo preto,
quem não fala direito
é preso por crimes inafiançáveis.
Pretróleo, camará!
"Hoje o dia não escurece."
- diz o repórter.
A água não precipitará.
Mas óia a chuva, camará!
Cara, que porra de merda é essa?
Tanto blá blá blá numa só conversa,
indo e vindo a lugar nenhum.
Uma voz fina como um engasgo
(ou uma criança mimada. Mimada!)
capaz de ridicularizar qualquer assunto.
Sei que nada aqui é passível de intromissão
por isso não estendo mais. Sacanagem!
Lendo as velhas letras no caderno,
lembro dos seus olhos cor-de-mel.
Nesses versos fedidos e sinceros,
vejo minhas lágrimas secas no papel.
Ainda se fosse de fato verdade
o que os fedidos versos diziam,
estaria eu feliz e falante e,
pelas ruas nossas bocas ririam.
Não quero forçar um reencontro,
nem nada fora de alcance.
Queria ter em seus olhos, querida,
os dias que não tive chance.
Agora novidades não há.
Se houvessem, eu diria.
Talvez, sorriria também;
mas por que sorrir
quando não há motivos?
Novidades ainda não há.
Se houvessem, não mudaria.
Apenas repetiria um verso;
mas por que repetir
quando não estão vivos?
Reescrevo, sem vontade nem força,
novos garranchos miúdos no caderno.
Vejo nos seus olhos cor-de-mel
as rimas de um verso moderno.
Passarão mais semanas, passarinhos piarão,
passearei por ai com passos sem pegadas.
Quando os sábados não chegarem, xingarei o tempo;
xingarei também os domingos quando passarem.
A vida transcorre contra o meu próprio gosto,
pois morre a cada dia quando o sol está posto.
Tão tranquilo o mundo lá dentro de casa,
de uma cena real da qual não passa de imaginação.
Do tremor à caça, da frustação para uma outra;
nas voltas da Terra é que meu cérebro enlouquece,
com o mesmo efeito os dias passam e trazem outros.
Amanhã, depois de amanhã, depois e depois de amanhã
e uma longa repetição de amanhãs que amanhecerão.
Eu com os mesmos olhos acordados e sonhadores,
relembrando da tranquilidade do mundo lá dentro de casa.
Perfeito foi o adormecer da noite
em que nossos sonos acumulados
rejeitaram as camas desarrumadas.
Sua face moribunda procurava
repouso no meu ombro magro;
por vezes tarado ao sentir
sua pele morna esquentar-me.
Em suas batalhas contra o cansaço,
quase fora derrotada na parte do cochilo.
Ficamos de dedos entrelaçados,
acariciando nervos e as dobras.
Eu ria de bobo... Gargalhava!
Gostoso sentir o seu peso
sentado neste sofá...
o filme chatérrimo na TV;
você sem sorrisos no olhar.
Reparava nas suas unhas vermelhas
que não combinam com sua pele,
nem com seus braços largos
nem com seus dedos grossos.
Não há proporção com seu corpo!
Olhei-te como monstro. Fiz cara feia!
Mas a imperfeição era só pensamento mundano.
No fim, reclamaste da minha inquietação.
Não revidei! Sosseguei-me,
ceguei-me e dormi antes que teus olhos!
Náusea nos pensamentos de náuseas que tive;
repugnância digna de um digno adjetivo.
Pois, da vida, não levo nada que vi na vida
nem as batalhas de verbos dos verbos no infinitivo.
A vida é um navio vagabundo de qualquer pirata:
cheia de riscos e rabiscos, mas dura na queda.
Relevando a hipótese de um maltrato inimigo
surpreender-te pelas costas e levar tudo à merda.
Devo ser um louco no meio de tantos normais.
Estudam... trabalham... namoram... vivem...
enquanto divirto-me com excessos de nada;
num harém virtual, num virtual harém.
Não reclamo! nem tenho orgulho. Orgulho?!
Só quero atenção de verdade, mas não posso comprá-las.
A atenção não é uma mulher-menino de esquina:
não aluga-se nem é um comércio de roupas ou balas.
Pensamentos nas náuseas dos pensamentos que tenho;
repugno cada sol que repugna o meu sereno.
Porém, na vida não suei tudo que devia na vida,
mas suarei se for antídoto para este veneno.
Trezentos e sessenta e cinco
que num só ano não há vínculo.
Perco-me no tempo
como o som do piano no ar,
como o sono em noite de Lua.
Há de convir que razões não faltam,
pois neste espírito corrido
apenas o que sentimos é cansaço.
Passam segunda, terça e a semana
num único piscar de olhos e,
quando no mais tardar damos conta,
a contagem regressiva encerra-se.
Trezentos e sessenta e cinco;
então recomeçamos.
Na trajetória do vento,
embico na 13 de maio
crente da proximidade com a 23.
Logo atrás, tinha a 25 de março
acompanhada de uma data distante:
XV de novembro de sei lá quando.
Expectante pela chegada na 7 de abril,
reparo que na paralela segue a 24...
de maiô em pleno centro
vinha a moça dificultando o trânsito:
- Tudo parado na 9 de julho!
E no calendário urbano que vivo
deito-me no leito
como as mãos num trágico rosto,
como um mendigo em plena rua
sem data nem nome nem saída.
Trezentos e sessenta e quatro...
que num só ano não há retrato.
Quando penso duas vezes em como agir,
preciso de uma outra chance de pensar.
A cada tentativa, acerto com os erros;
cada sinônimo é um desvio com o mesmo fim.
Há quem diga que versos brancos não rimam
e o surreal é acreditar que rimam sim;
para o leitor, o que importa é só clichê.
Talvez, às vezes, o que escrevo sobre você
não venha a ser nada de tão ruim.
São só palavras embaralhadas, sem sentido,
que se repetem, se repetem comigo.
Se quando penso como devo agir;
acabo por tropeçar em uma contradição.
A cada verso, bocejo com os olhos;
Cada antônimo é um caminho oposto do fim.
Culpa da ironia do destino,
que quando me viu menino disse:
- Serás um Zé qualquer como ninguém.
Às vezes, talvez, o que leio sobre você
venha a ser tudo tão bom.
São tantas palavras enfileiradas em ordem,
que se encaixam, se encaixam comigo.
Despertavam os primeiros raios de sol,
só então as pálpebras cegariam os olhos
e a enorme euforia adolescente descansaria.
Desta vez ficamos apenas de bate-papo,
perdidos na noite com copos nas mãos.
Fazíamos da ladainha um cabo de guerra;
da bebida um novo gole; de mim não sei.
A certeza era que tudo aquilo repetiria,
mas nunca desconfiamos da intensidade
nem poderia. Regra do jogo: não especular.
Renovados do sono, sairemos com hora marcada,
voltaremos sem data prevista e assim vai.
Eu e meus demônios na imensidão de São Paulo
vivendo o mais rápido possível para não envelhecermos.
...
Porém, talvez por despedirmos de tantas luas,
sobrou da euforia um poema juvenil.
E no meio de tanta pressa o corpo cansou-se...
envelheci rápido por excesso de vida.
Acabou!
A famigerada férias forçadas proclamou derrota...
Cessou-se.
Pouquíssimo tempo depois de “Ferruginoso”
perdi aquele estado do qual descrevia.
Agora sinto carência da carência que tinha.
Ao menos tive a graça de saborear aqueles versos;
na extrema rapidez guardei-os embaixo do colchão
(feito mesada), crente de que na escuridão durará.
Resumo a culpa da disfarçada tristeza acima
em duas palavras que se opõem: novo emprego.
As tragédias ainda são as mesmas,
só trocam os locais e as personagens.
Começou!
Preencho uma bancada cor-de-nada
cheia de furos para a passagem de fios.
A cadeira estofada, laranja e velha
alegra-se por suportar meu peso todos os dias.
Não tenho mais de atender telefonemas
como assim era no último serviço.
Noutro lado também não farei mais poemas,
pois o tempo na labuta sempre será maciço.
Disso já sei de cor e salteado.
Decorou?
No decorrer, de tanto correr,
corroer-me-ei.
Na jovem mente ainda,
martelará dolorida,
uma pergunta assim:
até que ponto valerá a pena?