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  1. 06 setembro 2010

    Aí

    Dinheiro dinheiro felicidade

    Um passo de cada vez - foi o que me disseram,
    mas não, costumamente, não levei a sério.
    Enquanto tento abraçar o mundo,
    por detrás de tudo, o mesmo cresce.
    Aí encabulo em pensamentos, travo ideias e
    declaro: só preciso de dinheiro.
    Sabe, os loucos discutem sobre felicidade,
    sobre aquilo que preenche o coração,
    mas no fundo é tudo a mesma ladainha.
    Insistem em odiar aquilo que eles amam.
    Ainda estou travado: só preciso de dinheiro...
    e de murchar o mundo inteiro com um furo.
    Aí decido fazer tudo ao mesmo tempo,
    empolgo e desempolgo e empolgo
    tudo numa só fração de segundos.
    Acabo como?! Discutindo sobre a felicidade,
    pois é, comigo e com minhas entranhas.
    E tudo, tudo, tudo acaba em nada.
    Um nada único!
    Aí deparo com mais uma trava e digo:
    só preciso de dinheiro...
    enquanto ainda não preciso de remédios.

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  2. 31 agosto 2010

    Politicamente incorreto

    Politicamente incorreto

    As'oreia du minino,
    suja de cera d'ouvido,
    escutavam atentamente a conversa
    do casal ao lado.
    As'oreia grande du minino.
    Grandes mesmo!
    Escutavam surdamente a conversa
    dos políticos na TV.
    Minhas'oreia, suporte d'óculos,
    não escutam nada quando querem.

    Na terra do petróleo preto,
    quem não fala direito
    é preso por crimes inafiançáveis.
    Pretróleo, camará!

    "Hoje o dia não escurece."
    - diz o repórter.
    A água não precipitará.
    Mas óia a chuva, camará!

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  3. 28 agosto 2010

    Sacanagem

    Sacanagem

    Cara, que porra de merda é essa?
    Tanto blá blá blá numa só conversa,
    indo e vindo a lugar nenhum.
    Uma voz fina como um engasgo
    (ou uma criança mimada. Mimada!)
    capaz de ridicularizar qualquer assunto.
    Sei que nada aqui é passível de intromissão
    por isso não estendo mais. Sacanagem!

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  4. 25 agosto 2010

    Doce mel venenoso

    Doce mel venenoso

    Lendo as velhas letras no caderno,
    lembro dos seus olhos cor-de-mel.
    Nesses versos fedidos e sinceros,
    vejo minhas lágrimas secas no papel.

    Ainda se fosse de fato verdade
    o que os fedidos versos diziam,
    estaria eu feliz e falante e,
    pelas ruas nossas bocas ririam.

    Não quero forçar um reencontro,
    nem nada fora de alcance.
    Queria ter em seus olhos, querida,
    os dias que não tive chance.

    Agora novidades não há.
    Se houvessem, eu diria.
    Talvez, sorriria também;
    mas por que sorrir
    quando não há motivos?

    Novidades ainda não há.
    Se houvessem, não mudaria.
    Apenas repetiria um verso;
    mas por que repetir
    quando não estão vivos?

    Reescrevo, sem vontade nem força,
    novos garranchos miúdos no caderno.
    Vejo nos seus olhos cor-de-mel
    as rimas de um verso moderno.

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  5. 22 agosto 2010

    O mundo lá dentro de casa

    O mundo lá dentro de casa

    Passarão mais semanas, passarinhos piarão,
    passearei por ai com passos sem pegadas.
    Quando os sábados não chegarem, xingarei o tempo;
    xingarei também os domingos quando passarem.
    A vida transcorre contra o meu próprio gosto,
    pois morre a cada dia quando o sol está posto.
    Tão tranquilo o mundo lá dentro de casa,
    de uma cena real da qual não passa de imaginação.
    Do tremor à caça, da frustação para uma outra;
    nas voltas da Terra é que meu cérebro enlouquece,
    com o mesmo efeito os dias passam e trazem outros.
    Amanhã, depois de amanhã, depois e depois de amanhã
    e uma longa repetição de amanhãs que amanhecerão.
    Eu com os mesmos olhos acordados e sonhadores,
    relembrando da tranquilidade do mundo lá dentro de casa.

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  6. 16 agosto 2010

    A perfeita imperfeição

    Eu e meus demônios

    Perfeito foi o adormecer da noite
    em que nossos sonos acumulados
    rejeitaram as camas desarrumadas.
    Sua face moribunda procurava
    repouso no meu ombro magro;
    por vezes tarado ao sentir
    sua pele morna esquentar-me.
    Em suas batalhas contra o cansaço,
    quase fora derrotada na parte do cochilo.
    Ficamos de dedos entrelaçados,
    acariciando nervos e as dobras.
    Eu ria de bobo... Gargalhava!
    Gostoso sentir o seu peso
    sentado neste sofá...
    o filme chatérrimo na TV;
    você sem sorrisos no olhar.
    Reparava nas suas unhas vermelhas
    que não combinam com sua pele,
    nem com seus braços largos
    nem com seus dedos grossos.
    Não há proporção com seu corpo!
    Olhei-te como monstro. Fiz cara feia!
    Mas a imperfeição era só pensamento mundano.
    No fim, reclamaste da minha inquietação.
    Não revidei! Sosseguei-me,
    ceguei-me e dormi antes que teus olhos!

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  7. 12 agosto 2010

    Da náusea aos pensamentos

    Eu e meus demônios

    Náusea nos pensamentos de náuseas que tive;
    repugnância digna de um digno adjetivo.
    Pois, da vida, não levo nada que vi na vida
    nem as batalhas de verbos dos verbos no infinitivo.

    A vida é um navio vagabundo de qualquer pirata:
    cheia de riscos e rabiscos, mas dura na queda.
    Relevando a hipótese de um maltrato inimigo
    surpreender-te pelas costas e levar tudo à merda.

    Devo ser um louco no meio de tantos normais.
    Estudam... trabalham... namoram... vivem...
    enquanto divirto-me com excessos de nada;
    num harém virtual, num virtual harém.

    Não reclamo! nem tenho orgulho. Orgulho?!
    Só quero atenção de verdade, mas não posso comprá-las.
    A atenção não é uma mulher-menino de esquina:
    não aluga-se nem é um comércio de roupas ou balas.

    Pensamentos nas náuseas dos pensamentos que tenho;
    repugno cada sol que repugna o meu sereno.
    Porém, na vida não suei tudo que devia na vida,
    mas suarei se for antídoto para este veneno.

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  8. 06 agosto 2010

    Calendário urbano

    Calendário urbano

    Trezentos e sessenta e cinco
    que num só ano não há vínculo.
    Perco-me no tempo
    como o som do piano no ar,
    como o sono em noite de Lua.
    Há de convir que razões não faltam,
    pois neste espírito corrido
    apenas o que sentimos é cansaço.
    Passam segunda, terça e a semana
    num único piscar de olhos e,
    quando no mais tardar damos conta,
    a contagem regressiva encerra-se.

    Trezentos e sessenta e cinco;
    então recomeçamos.
    Na trajetória do vento,
    embico na 13 de maio
    crente da proximidade com a 23.
    Logo atrás, tinha a 25 de março
    acompanhada de uma data distante:
    XV de novembro de sei lá quando.
    Expectante pela chegada na 7 de abril,
    reparo que na paralela segue a 24...
    de maiô em pleno centro
    vinha a moça dificultando o trânsito:
    - Tudo parado na 9 de julho!

    E no calendário urbano que vivo
    deito-me no leito
    como as mãos num trágico rosto,
    como um mendigo em plena rua
    sem data nem nome nem saída.
    Trezentos e sessenta e quatro...
    que num só ano não há retrato.

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  9. 05 agosto 2010

    O encaixe do ponto que se repete

    Eu e meus demônios

    Quando penso duas vezes em como agir,
    preciso de uma outra chance de pensar.
    A cada tentativa, acerto com os erros;
    cada sinônimo é um desvio com o mesmo fim.
    Há quem diga que versos brancos não rimam
    e o surreal é acreditar que rimam sim;
    para o leitor, o que importa é só clichê.

    Talvez, às vezes, o que escrevo sobre você
    não venha a ser nada de tão ruim.
    São só palavras embaralhadas, sem sentido,
    que se repetem, se repetem comigo.

    Se quando penso como devo agir;
    acabo por tropeçar em uma contradição.
    A cada verso, bocejo com os olhos;
    Cada antônimo é um caminho oposto do fim.
    Culpa da ironia do destino,
    que quando me viu menino disse:
    - Serás um Zé qualquer como ninguém.

    Às vezes, talvez, o que leio sobre você
    venha a ser tudo tão bom.
    São tantas palavras enfileiradas em ordem,
    que se encaixam, se encaixam comigo.

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  10. 04 agosto 2010

    Insolúvel

    Eu e meus demônios

    Despertavam os primeiros raios de sol,
    só então as pálpebras cegariam os olhos
    e a enorme euforia adolescente descansaria.
    Desta vez ficamos apenas de bate-papo,
    perdidos na noite com copos nas mãos.
    Fazíamos da ladainha um cabo de guerra;
    da bebida um novo gole; de mim não sei.
    A certeza era que tudo aquilo repetiria,
    mas nunca desconfiamos da intensidade
    nem poderia. Regra do jogo: não especular.
    Renovados do sono, sairemos com hora marcada,
    voltaremos sem data prevista e assim vai.
    Eu e meus demônios na imensidão de São Paulo
    vivendo o mais rápido possível para não envelhecermos.

    ...

    Porém, talvez por despedirmos de tantas luas,
    sobrou da euforia um poema juvenil.
    E no meio de tanta pressa o corpo cansou-se...
    envelheci rápido por excesso de vida.

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