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  1. julho 10, 2010

    Empate

    Dose

    Desta vez não tinha frio.
    Meu algodão de pele lisa
    esperava o amanhecer ali,
    e parada, e seminua, e isso.
    Encarava meus olhos de sono
    como se ainda quisesse algo
    (e no fundo não errei).
    No embate da noite, de tanto,
    não houve empate: perdi.
    Com a graça de batalhadora,
    fez o desejo forçar um ensejo
    e encenamos mais um filme.
    Desta vez já tinha sol.
    Meu algodão de pele cansada,
    então, assim declarou:
    - Nesse jogo só há vencedor
    quando ambos perdem o combate.

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  2. maio 14, 2010

    Sete dias depois de uma garrafa de vinho e lirismo puro

    Garrafa de vinho

    Semana que vem, promete me amar?
    Já que é árduo um encontro nosso
    nessa vida de contrários horários.
    Espero que não deixemos esfriar
    essa vontade de termos um ao outro;
    se sem um outro você, sou um eu vazio.
    Poder então, tocar os teus lábios,
    rir do seu riso, esquentar seus abraços;
    encher-me em alegria, se não só,
    trancá-la de vez em nossa casa.
    Semana que vem, promete ver,
    com maquiados olhos cegos de amor,
    que eu, somente, só quero a ti?
    E se é tão difícil compreender,
    mesmo sabendo que palavras não bastam;
    saiba que em tudo que disfarço e faço,
    é sempre pensando em um tudo você.

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  3. março 18, 2010

    Bilhete na porta da geladeira

    Bilhete na porta da geladeira

    Era um silêncio seco, pesado aos meus ouvidos.
    Na imensidão secreta do nosso refúgio,
    um porta-retrato sobre o criado-mudo,
    um abajur sem lâmpada do outro lado
    e seu corpo estendido no leito de sono.

    Era tão confortável velar seu descanso.
    Um anjo de maquiados olhos fechados.
    Reclamou cansaço enquanto à mesa,
    desfez da toalha no miúdo corpo
    e se jogou por cima da roupa de cama.

    Amanhã já vai chegando, eu aqui,
    sentado a sua frente, deslumbrado.
    Despertei-me do chão aconchegante,
    soltei um beijo sem graça em sua boca,
    e te cobri com toda sutileza possível.

    "Tenha um bom dia, meu bem."

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  4. fevereiro 17, 2010

    Valentina Caran

    Vende-se

    Num bar d'hotel, estou a olhar (sem pretensões),
    uma garota que não sabe nem andar
    de mãos abraçadas com um outro rapaz.
    Eu via preconceito nos vidros dos carros,
    nas placas de "vende-se", no toque do celular;
    Enquanto que os magrelos corpulentos gargalham
    e se divertem na mesa de bilhar. Ora pois,
    o que há de errado em não querer dançar?

    Com chaves no bolso ao estacionamento vazio;
    o rádio zumbindo, eu de olhos fechados...
    com meu corpo a descansar. Ora pois,
    o que há de certo nessa minha vida?
    Preciso de um novo ar para respirar
    e de uma garota que saiba andar
    de mãos dadas com um rapaz. Pois olha,
    vende-se um prédio logo a nossa frente!

    Hoje, o amor é uma propaganda de TV:
    em pequenos intervalos,
    vemos anúncios diferentes. Ora pois,
    mude de canal, ou desligue-a de vez.
    Se há sinônimo de amar, este sim,
    tem mais valor: o silêncio dos gestos
    seguido de suspiros na respiração.
    Ora então, o que há de errado em vender amor?

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  5. novembro 08, 2009

    Como morri de amor?

    A força do amor

    Digo que não sei. Hoje, já morto, posso contar detalhes, mas ao certo, nem de perto, senti dor.

    Começou num piscar d'olhos e, por mais que tentei o controle, tomou posse dos meus sentidos, dos meus instintos, de mim. Vagarosas eram apenas minhas atitudes; o resto pegava fogo, acelerava. Era o primeiro sintoma! Como conseguiria fugir dessa aflição? Não que eu quisesse, mas o medo existia. Ele sim queria a distância. Enfrentei-o.

    Com o passar dos dias, com o pesar dos passos, o que antes só queimava transformou-se em erupção. A vontade de sempre estar ali, olhando o que até então era utopia, não era passageira. Eu contava as horas, sabia todas suas manobras, seus trajetos, perseguia seu cheiro. Mais um sintoma viria: a obsessão. E não, não era a toa.

    Ainda tímido e quieto, sofria em vê-la e não tocá-la, sorriria ao tê-la e venerá-la; mas, e mais que isso, faltava coragem. A inércia era constante. Quando essa covardia vira empecilho é porque mais um sintoma está explodindo. Homens receiam tocar em suas musas, são obras feitas para admirarem, não para se terem. O sintoma do impossível entra em questão, te põe em pane.

    Ao perceber que este é somente uma pedra e não um muro, o sintoma perde força... perde força... perde força e some. Curado dessa dor que nunca existiu, sua visão parece nítida, sua auto-estima supera qualquer obstáculo, não há descrença nem quem te vença. Existe apenas o óbvio: uma paixão... não correspondida. Pois bem, mesmo num mar de rosas ainda há sujeira.

    Precisava declarar-me, descobrir sua consideração por mim, sobre o que faço, sobre o que sou. Um sintoma sem nome, pois não existe enquanto não houver resposta. Um sim ou um não, um talvez nunca pôde. E assim, na penumbra da noite, na caminhada sem sol, contei o que queria, fiz o que podia, a tive em meus braços. Um novo sintoma velho retornou bravejante: uma paixão, enfim, correspondida.

    Desde então sou dependente, um vício prazeroso. Dez dedos nas mãos não eram o bastante, precisava de abraços de outros dedos. O perfume, de longe, não saciava mais meus desejos; eu quis ser o colar do seu pescoço, quis ser os pelos de seu corpo para todo eu me arrepiar. Senti reciprocidade, um amor verdadeiro. O mais forte e tumultuado dos sintomas, agora me matava, ia até o gozo e voltava. Nem o mais robusto coração aguentaria, é algo que vem para te levar. E em meu mantenedor, não só pulsava o sangue como também enfrentava a chagas; uma doença sensível e insensata, que é do bem, que te dá vida, mas que te mata.

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