A história de um homem que nunca foi à escola começa quando, decididamente, resolve ir a escola. Difícil enfrentar cadernos e professores, estes últimos vistos como donos da razão, considerando que a maior aproximação que tivera disso tudo foi ver o filho fazendo lições de casa na mesa da cozinha. Na família, o homem sem nome era o único que não decifrava as letras. Foi encorajado por um amigo, leitor assíduo das tragédias no jornal da cidade. O homem sem nome via apenas as fotos dos carros batidos nas estradas, não sabia quantos morreram, como ocorrera, caso ninguém contasse o fato.
Seguia toda noite, depois do árduo trabalho, para uma sala improvisada. Ali, uma lousa estreita pendurada com arame de varal mal cabia a letra da professora, cadeiras espalhadas pelo chão de terra batida, os cadernos eram postos sobre o colo. Não havia postura, tudo era hipótese. Na parede de trás, letras garrafais desenhadas em folhas pautadas de caderno formavam o alfabeto. Até então, desconhecidas pelo homem sem nome. Como dito, tudo era hipótese.
Agora, ao invés de enxada nas mãos inchadas havia lápis nos dedos hostis. Ao invés da força aplicada na terra fértil, haviam rabiscos cruzando as linhas do papel. Suor na testa convertido em sorriso no rosto. Com aperfeiçoamente, elegância, insistência, ostentação, ultrapassou limites, construiu a c-a-s-a, separou a sí-la-ba, formou frases. E hoje, Manoel da Silva, o antigo homem sem nome, daria outros nomes para tudo o que quisera.

















