Vinha um homem arrastando os pés
no auge de sua velhice; resmungava.
Logo ao debruçar no balcão sem cor,
pediu com a voz pigarreada:
- Quero uma... da mais escura.
Dose mesmo foi aguentar aquilo tossindo,
fumando e forçando saliva goela abaixo.
Doze dias depois, volta o velho.
O mesmo papo evasivo, neurótico...
Em suma, a aparência é de um estado eterno
de embriaguez. Talvez até seja!
Amargurado então, repetiu o pedido:
- Quero uma – a mesma pausa - da mais escura.
E foi-se o tempo junto com as moedas;
foi-se o pigarro em forma de gente.
A vida de um dono de bar
(se ainda posso chamá-lo assim)
tem dessas maravilhosas estranhezas.
Numa noite qualquer, em meio ao desejo
das portas serem fechadas e meu sono descansar,
torno-me o melhor amigo de um desconhecido.
Acompanho-os, pois faz parte da minha encarnação.
Ao mesmo tempo que alegro-me pelo dinheiro,
entristeço meu rosto em ver um bêbado fudido
buscando no calor do álcool uma explicação.
Indago mentalmente, desafiando o tempo:
- Até que ponto estes corpos suportarão?
(Estes são de homens mergulhados em vícios.)
A resposta perdi entre os goles
de outro bêbado que reparo há horas.
E uma, duas, três doses a mais...
se impeço-o, barro meu ganha-pão;
daria graça à concorrência.
Uma ajuda seguida de atrapalho.
E uma, duas, três horas depois...
vai ziguezagueando em plena escuridão.
Era o último cliente ciente da inconsciência,
pobre novamente, bêbado pra caralho.
Sigo o meu caminho. Antes e sempre,
confiro o trinco da porta... e parto.
As moedas no bolso aguardam ansiosamente
para servirem de troco noutro dia.
Sei que não faltarão homens no balcão.
Logo cedinho, vinha um homem arrastando os pés
no auge de sua imundice; implorava:
- Não peço nada mais, senhor, do que um copo d’água.
Nem medi esforços para abrir a torneira e
encher um americano até a boca. Ofereci!
Em um gole (e meio), o sujo matara a sede.
Olhou a volta, pausou por um instante eterno
e pousou os olhos numa garrafa semi-vazia da estante.
Debruçou no balcão, como já era de costume de outros homens,
e em tom de respeito falou:
- Senhor, era daquela garrafa que meu falecido pai bebia.
Não tenho trocado algum para oferecer-te,
mas agradeceria profundamente se desse o direito
de experimentar o pecado que aquele cometera tantas vezes.
O bar vazio tornou-se ainda mais quieto.
Era contra meus princípios agir assim:
uma vez fiado, sempre ocorreria.
Mas diante daquele aparente mendigo,
fiquei partido e, em falsa amargura, respondi:
- Tudo bem. Terá essa vez também como a última.
Ousará voltar aqui apenas quando tiver moedas.
Sinalizou a cabeça como se tivesse de acordo
e levou a garrafa a boca como se fosse refresco.
Ao engolir a bebida ardida, espremeu os olhos:
havia pecado assim como o pai fizera.
Deixei levar o vasilhame, talvez como lembrança
disfarçada de esperança.
E naquela manhã, ainda dorminhocas,
as moedas ficaram quietas, nem serviram de troco.
Esperaram a noite! Pois depois do expediente,
em multidão, os homens vêm para gastar,
beber e esquecer do que não podem lembrar.


















