1. 05 March 2010

    Balé das oito pernas

    Balé das oito pernas - Clique para ampliar

    Aos dez era garoto.
    Pobre menino!
    Aos quinze fui um broto.
    Aos vinte não sou nada.
    Tropeço nas minhas próprias palavras
    e perco a guerra fria na conquista do território.
    O leite derramado. Agora choro!
    Por hoje, sou um porco.
    Um canalha disfarçado de culpa
    nas cadeiras de uma sessão de cinema.
    Sou um infiltrado e quem diria um frio na barriga.
    Ou uma reclamação. Ou uma chuva de verão
    que só molha, mas não resfria.
    Antes eu era um grilo;
    agora o grilo não é mais nada.
    Coitado! Mal sabe das coisas que se passam...
    E das vidas que se entrelaçam,
    nem todas pertencem ao mesmo laço.
    O nó que faço, desfaço.
    Aos vinte eu me engasgo
    e tropeço nas linhas dos meus traços.
    Do turbilhão de avisos
    ao estouro de uma mágoa.
    Um vacilo cometido por mãos
    que não esmurram, mas machucam.
    E terminam, e machucam;
    e começam; e terminam.
    E machucam com murros invisíveis.
    Num ano, vivi três vezes
    em dois dias diferentes
    para crescer mais cinco anos.
    Aos vinte e cinco, sou risada.

  2. 26 February 2010

    Ruídos ao pé da letra?

    Interrogação?

    Dois pontos gritam: Exclamação!
    Respondo com reticências... sem ponto final
    Os dois pontos, com cara de interrogação,
    fazem um não de negação. Eu digo:
    Tremas acentos travessões ao inferno
    (Sem vírgulas, nem pontuações.)
    Ponto-vírgula entres aspas. Obrigado.

  3. 21 January 2010

    O jantar dos autores vaiados

    Whisky a Go Go

    - Traga mais uma dose e sirva-nos!
    - gritei em tom amargo para causar espanto.

    - Não me omita sua vida, pobre poeta,
    desconfio de todos seus temíveis prantos.

    - Não mentirei que me sinto fraco por dentro,
    mas não conto detalhes de meu sofrimento a ninguém.

    - Nem mesmo para um outro mísero velho
    amigo que confessa lhe querer bem?
    - via o garçom assustado trazendo a bebida cuidadosamente.

    - Apenas meus versos sabem como estou.
    Poemas que nunca ninguém lera.
    - e com os olhos fechados, seu rosto deitou.

    - Como ousa dizer uma bobagem dessas? - indaguei.

    - Repetirei que eles não fazem noção.
    Todos lêem minha vida com vidrados olhos,
    mas olho vidrado não é coração.

    - Desculpe-me, caro amigo, mas desta não concordo,
    - continuei e virava mais um guloso gole ardido -
    sei bem que suas rimas é seu breve retrato.
    Bendita Paris, achaste que havia partido?

    - Não finja saber algo sobre mim.
    Só eu sei o que ferve meu sangue.

    - Pois eu sei muito bem o que sentes, covarde!
    Somos filhos da mesma gangue.

    - Grite mais alto, demônio em pessoa,
    todos adorariam saber o que guardo.

    - Controle-se! Ainda não acabamos nossa conversa.

    - Espero que ninguém tenha escutado.

    - Não se preocupe. Esquece que ninguém nos ouve?

    - Cale-se! Não te aguento mais, cafajeste.

    - Tolo, ainda somos dois no mesmo corpo,
    pensando num verso que realmente preste.