Aos dez era garoto.
Pobre menino!
Aos quinze fui um broto.
Aos vinte não sou nada.
Tropeço nas minhas próprias palavras
e perco a guerra fria na conquista do território.
O leite derramado. Agora choro!
Por hoje, sou um porco.
Um canalha disfarçado de culpa
nas cadeiras de uma sessão de cinema.
Sou um infiltrado e quem diria um frio na barriga.
Ou uma reclamação. Ou uma chuva de verão
que só molha, mas não resfria.
Antes eu era um grilo;
agora o grilo não é mais nada.
Coitado! Mal sabe das coisas que se passam...
E das vidas que se entrelaçam,
nem todas pertencem ao mesmo laço.
O nó que faço, desfaço.
Aos vinte eu me engasgo
e tropeço nas linhas dos meus traços.
Do turbilhão de avisos
ao estouro de uma mágoa.
Um vacilo cometido por mãos
que não esmurram, mas machucam.
E terminam, e machucam;
e começam; e terminam.
E machucam com murros invisíveis.
Num ano, vivi três vezes
em dois dias diferentes
para crescer mais cinco anos.
Aos vinte e cinco, sou risada.
Dois pontos gritam: Exclamação!
Respondo com reticências... sem ponto final
Os dois pontos, com cara de interrogação,
fazem um não de negação. Eu digo:
Tremas acentos travessões ao inferno
(Sem vírgulas, nem pontuações.)
Ponto-vírgula entres aspas. Obrigado.
- Traga mais uma dose e sirva-nos!
- gritei em tom amargo para causar espanto.
- Não me omita sua vida, pobre poeta,
desconfio de todos seus temíveis prantos.
- Não mentirei que me sinto fraco por dentro,
mas não conto detalhes de meu sofrimento a ninguém.
- Nem mesmo para um outro mísero velho
amigo que confessa lhe querer bem?
- via o garçom assustado trazendo a bebida cuidadosamente.
- Apenas meus versos sabem como estou.
Poemas que nunca ninguém lera.
- e com os olhos fechados, seu rosto deitou.
- Como ousa dizer uma bobagem dessas? - indaguei.
- Repetirei que eles não fazem noção.
Todos lêem minha vida com vidrados olhos,
mas olho vidrado não é coração.
- Desculpe-me, caro amigo, mas desta não concordo,
- continuei e virava mais um guloso gole ardido -
sei bem que suas rimas é seu breve retrato.
Bendita Paris, achaste que havia partido?
- Não finja saber algo sobre mim.
Só eu sei o que ferve meu sangue.
- Pois eu sei muito bem o que sentes, covarde!
Somos filhos da mesma gangue.
- Grite mais alto, demônio em pessoa,
todos adorariam saber o que guardo.
- Controle-se! Ainda não acabamos nossa conversa.
- Espero que ninguém tenha escutado.
- Não se preocupe. Esquece que ninguém nos ouve?
- Cale-se! Não te aguento mais, cafajeste.
- Tolo, ainda somos dois no mesmo corpo,
pensando num verso que realmente preste.