Você, ainda assim, tão inocente,
(tão vazia de si mesma)...
vê nos devaneios da vida
a coerência e a certeza do que irá viver.
Tendo nos dentes o medo,
guardado em segredos, de se contradizer.
Pois não sei; eu que confundo atrizes,
consolo as tristes e não tenho nenhum santo,
posso então dirigir esse palco?
Há quem vê graça em metáforas, em conotações,
na figuração de algo incerto, porém correto.
Sinceridade é ser direto e, sempre ou quase,
manter o peito aberto, sem medo,
para que contradições passem despercebidas.
Não sou sincero nem cicatrizo feridas.
Se confundo é por variedade,
se consolo é por chantagem,
se não creio é por descrença.
Cadê você com aqueles olhos de perdida,
aparentando sempre um frio na barriga,
parecendo ter medo de viver?
Cadê sua face magra toda distorcida
no seu magro corpo cheio de parasitas
e seus pensamentos magrelos de doer?
Ficou para trás o nosso tempo de criança,
da lembrança de que o mundo não girava,
de rodar o corpo e sonhar bem alto.
Lá vem você. Toda menina;
toda cheia de si mesma.
Sorriso não cabe em seu rosto.
Vem saltitante, cantante e feliz.
Descobriu que na vida não vive
aquele que nunca se contradiz.
Se não confundo é por escassez,
se não consolo é que não agrado,
se creio foi por tanto descrer.






