A história de um homem que nunca foi à escola começa quando, decididamente, resolve ir a escola. Difícil enfrentar cadernos e professores, estes últimos vistos como donos da razão, considerando que a maior aproximação que tivera disso tudo foi ver o filho fazendo lições de casa na mesa da cozinha. Na família, o homem sem nome era o único que não decifrava as letras. Foi encorajado por um amigo, leitor assíduo das tragédias no jornal da cidade. O homem sem nome via apenas as fotos dos carros batidos nas estradas, não sabia quantos morreram, como ocorrera, caso ninguém contasse o fato.
Seguia toda noite, depois do árduo trabalho, para uma sala improvisada. Ali, uma lousa estreita pendurada com arame de varal mal cabia a letra da professora, cadeiras espalhadas pelo chão de terra batida, os cadernos eram postos sobre o colo. Não havia postura, tudo era hipótese. Na parede de trás, letras garrafais desenhadas em folhas pautadas de caderno formavam o alfabeto. Até então, desconhecidas pelo homem sem nome. Como dito, tudo era hipótese.
Agora, ao invés de enxada nas mãos inchadas havia lápis nos dedos hostis. Ao invés da força aplicada na terra fértil, haviam rabiscos cruzando as linhas do papel. Suor na testa convertido em sorriso no rosto. Com aperfeiçoamente, elegância, insistência, ostentação, ultrapassou limites, construiu a c-a-s-a, separou a sí-la-ba, formou frases. E hoje, Manoel da Silva, o antigo homem sem nome, daria outros nomes para tudo o que quisera.
Preciso de silêncio. Apenas o som da respiração deste nariz entupido pode denegrir este momento e, claro, o deste lápis que está a riscar o papel. Enquanto exijo concentração, presto atenção no vento que entra, no vento que adentra meu recinto. Perco o foco, me afogo!
Rebuscando aquilo que havia perdido, tiro os óculos e expremo os olhos como que adiantaria. As palavras não vêm do além, exige esforço, paciência, esforço, paciência, repetição e conhecimento... Numa boa escrita emprego a vírgula, culpo o travessão e demito os erros. Justa causa? Nem sempre; às vezes, também, erros passam despercebidos, sequer recebem punição. Faço a releitura, um telefonema entre frases, acentuo, faz frio, fecho a janela, apago o que não agradou.
Pois escrevo porque sinto o bem. Sem importar se sou lido, se dou riso. Apenas dedico de mim, o que possa servir para outros, o que é parte do que sou. Algo que seja coerente, apreciado, precioso... E nunca, de maneira alguma, mesmo com a mais indelicada persuasão desencantar-se pelo que escreveste. Contanto que tenha sido feito com vontade, com o coração; é impossível, incapaz, desgostoso não firmar chão com as palavras escritas.
Reponho aquilo que havia encontrado, forço os olhos contra o papel, recoloco os óculos. Palavras interpretadas são fantasias, faz voo, crescimento, traz cura... Numa má escrita desemprego o autor, critico, argumento, proibo minha leitura. Injusto? Com certeza não; sou exigente comigo, exijo o treino, a beleza, meu riso sincero. Refaço mentalmente a estrutura, vejo a briga entre frases, levanto, faço birra, rasgo o papel. É amargo o que desagrada.