Os neurônios tropeçam nos pedregulhos
dos meus largos pensamentos estreitos.
Fazem congestionar-me todo em delírios.
Ah, se eu soubesse realmente voltar
pela estrada que segui;
eu veria todos meus erros convertidos em
vitórias e medalhas. As lágrimas lavariam
um rosto imundo. Talvez, o meu. Sim;
já não me reconheço mais. Cresci e mudei!
Posso dizer o mesmo de ti, camaleão?
Achas que pode sempre mudar,
se nem mesmo sabe quem és?
Seu mundo de contradições e descartes.
Ah, sou só mais um espectador de vidas
alheias. Forma ou conteúdo?
E meus neurônios caem, esfarelam-se e
nascem outra vez. Nascem outra vez.
Morrem... cresci e continuo o mesmo!
Você, ainda assim, tão inocente,
(tão vazia de si mesma)...
vê nos devaneios da vida
a coerência e a certeza do que irá viver.
Tendo nos dentes o medo,
guardado em segredos, de se contradizer.
Pois não sei; eu que confundo atrizes,
consolo as tristes e não tenho nenhum santo,
posso então dirigir esse palco?
Há quem vê graça em metáforas, em conotações,
na figuração de algo incerto, porém correto.
Sinceridade é ser direto e, sempre ou quase,
manter o peito aberto, sem medo,
para que contradições passem despercebidas.
Não sou sincero nem cicatrizo feridas.
Se confundo é por variedade,
se consolo é por chantagem,
se não creio é por descrença.
Cadê você com aqueles olhos de perdida,
aparentando sempre um frio na barriga,
parecendo ter medo de viver?
Cadê sua face magra toda distorcida
no seu magro corpo cheio de parasitas
e seus pensamentos magrelos de doer?
Ficou para trás o nosso tempo de criança,
da lembrança de que o mundo não girava,
de rodar o corpo e sonhar bem alto.
Lá vem você. Toda menina;
toda cheia de si mesma.
Sorriso não cabe em seu rosto.
Vem saltitante, cantante e feliz.
Descobriu que na vida não vive
aquele que nunca se contradiz.
Se não confundo é por escassez,
se não consolo é que não agrado,
se creio foi por tanto descrer.
Sei pouco de mim,
tão mais desconheço os meus versos.
De alguém, eles arrancam suspiros?
Meus versos - que versos? - não comovem;
se estes, ao menos, são lidos.
Preciso variar mais!
Ainda vivo repetindo-me...
repetindo... repetindo...
e, repentinamente,
acontece algo: mudo o verso.
Porém, de que verso digo?
Todos dizem absolutamente nada!
Digo nada... permaneço em silêncio.
Minha vida - que vida? - sei bem;
se esta, ao menos, é vivida.
Preciso variar mais, pois,
ainda vivo repetindo-me...
repetindo... repetindo...
e, repentinamente,
acontece algo: mudo de vida.
Sei bem de mim,
tão mais reconheço os meus versos.
Alguém neles se inspiram?
Meus versos - e que versos! - comovem;
se estes, ao menos, são entendidos.
Preciso variar mais!
Ainda vivo repetindo-me...
repetindo... repetindo...
e, ...
repetindo!