No vai-e-vem da cadeira de balanço
revejo meu tempo tecido de pétalas (nada) brancas.
Tão imune o passado é em minha mente
que mesmo presente ainda é só lembrança.
Hoje as rugas moram em meu corpo,
mas não atrofio sequer um sorriso contente.
Sou velha. Existo. Tenho muitas histórias.
Então vejo meus meninos brincando e brincando,
insistindo nessa variância infantil.
Ainda pobres da malícia que fariam um dia
despontarem no mundo feito bambu de varal.
Cresceram em uma virada de noite, os dois.
Que dor!
Quiseram fugir da cidade para fugir dos estudos
e também fugiram do trabalho e voltaram para casa;
os três: um, o outro e a mulher de um terceiro.
Deve ter batido a saudade (ou fugiram d'outra cidade
para fugirem das confusões que não fugiram deles).
Até hoje não desmentem nem mentem! Só fingem...
Meus meninos agora são pais tão iguais
quanto aquele que nunca tiveram.
Por azar!
Intrometido que era morreu com um tiro na fuça
na porta da casa velha no bairro do Cajamar.
Só de pensar no defunto a minha voz soluça,
mas o mundo não tão injusto deixou-me dois meninos...
no ventre. Dentro de mim a minha Terra!
Seria mãe solteira e viúva e hoje sou velha.
Tenho muitas histórias porque nunca hesito.
Vejo os meninos dos meus filhos brincando e brincando,
variando nessa insistência juvenil.
Passarão mais semanas, passarinhos piarão,
passearei por ai com passos sem pegadas.
Quando os sábados não chegarem, xingarei o tempo;
xingarei também os domingos quando passarem.
A vida transcorre contra o meu próprio gosto,
pois morre a cada dia quando o sol está posto.
Tão tranquilo o mundo lá dentro de casa,
de uma cena real da qual não passa de imaginação.
Do tremor à caça, da frustação para uma outra;
nas voltas da Terra é que meu cérebro enlouquece,
com o mesmo efeito os dias passam e trazem outros.
Amanhã, depois de amanhã, depois e depois de amanhã
e uma longa repetição de amanhãs que amanhecerão.
Eu com os mesmos olhos acordados e sonhadores,
relembrando da tranquilidade do mundo lá dentro de casa.