Despertavam os primeiros raios de sol,
só então as pálpebras cegariam os olhos
e a enorme euforia adolescente descansaria.
Desta vez ficamos apenas de bate-papo,
perdidos na noite com copos nas mãos.
Fazíamos da ladainha um cabo de guerra;
da bebida um novo gole; de mim não sei.
A certeza era que tudo aquilo repetiria,
mas nunca desconfiamos da intensidade
nem poderia. Regra do jogo: não especular.
Renovados do sono, sairemos com hora marcada,
voltaremos sem data prevista e assim vai.
Eu e meus demônios na imensidão de São Paulo
vivendo o mais rápido possível para não envelhecermos.
...
Porém, talvez por despedirmos de tantas luas,
sobrou da euforia um poema juvenil.
E no meio de tanta pressa o corpo cansou-se...
envelheci rápido por excesso de vida.
Estava de volta à velha rua. Ainda sem saída, agora quase que para os dois sentidos. A monotonia contrapõe aquilo que existia há alguns anos. Parece que ontem, e até antes disso, crianças brincavam por ali, ziguezagueavam sobre os paralelepípedos incansavelmente. Não devo nem quero incorporar Casimiro de Abreu, mas já adianto a minha saudade: aquele maravilhoso tempo perdeu-se por entre meus dedos. E mesmo que na aparência estivesse tudo sob controle, jamais teria a real capacidade de não crescer. Estaria infringindo as leis da natureza ou, então, concretizando a existência da Terra do Nunca.
Sem a exclusividade do eu, acompanhei na expectativa o crescimento dos infantis amigos. Todos belos, saudáveis e polidos no hoje. Certo orgulho em meu peito. De fato, daquele tempo é o que mais sangra a falta, pois, em certa forma, tenho-os apenas em lembrança. Às vezes um ‘oi’ por aqui, um ‘como vai?’ por outro lado, mas nada como antigamente! Em nossa antiga mente éramos inocentes (decentes), no máximo depositávamos a malícia em paródias ofensivas. No exato instante chocava, no seguinte causava gargalhadas. Crescemos ajudando um ao outro na própria descoberta; e nessa condição de alunos-professores ganhamos o mundo e o autoconhecimento. Uma base para tudo.
Escrevo para que algo sirva como registro, um documento pós-infância da saudade que sinto. Agora tão convencidos que era somente fase, encaramos face a face tudo aquilo que a vida nos propõe. Haveria de ser assim como já pronunciavam nossos pais e as lições de casa da escola. Todas broncas, quedas, vergonhas e desastres mínimos serviram de algo; e para essa conclusão intensa como um puxão de orelha bastou apenas uma visita a rua sem saída.
Vejo as fotos em meus
álbuns coloridos;
imagens velhas de
infantis crianças.
Nós com
suor nos rostos
reinventando outra
brincadeira qualquer,
só para não ter hora de
descanso. Fotos sem legendas.
"Por que é que isso te irrita tanto?
Se quando havia, você havia de resmungar."
E ainda reclamo.
Na hora de sono,
diz: "Vou dormir."
Eu não abro a boca:
essa é minha resposta.
Dessas sobras de planos guardemos apenas os alcançáveis,
aqueles que fazem sentido, ou ainda, os que cor não perderam.
Vamos juntar as migalhas, quem sabe algo melhor nos surpreenda;
e nessa nossa viagem no tempo possamos resgatar o esquecido.
É mesmo fascinante ver que não perdemos o brilho;
os nossos dentes velhos refletem os dias bem vividos.
Das tristezas não me lembro, já nem sei se existiram.
O fato é que crescemos nos amando e mentindo;
confesso: mais mentiras do que amor entre nós,
mas nada que faça estremecer ou curvinhar a voz.
E vinha contando do seu tempo de menina;
da vida saudável, porém vazia. Tempo de rimas.
Havia sorrisos e soluços engasgados... misturados;
nossas faces cruzavam-se num momento infantil.
Lembranças malvadas; dourado era o tempo de criança.
Já pulávamos partes, assim como pulávamos corda.
Saltitantes... brilhantes... brinquedos... briguentos;
depois fazíamos as pazes cantando a ciranda maliciosa.
Entre no círculo. Arrisque! Provoque! Fique por um fio.
Conte verdades, invente histórias; faça o desafio.
Saudades dos tempos de escola, da professora de português;
de cansar brincando, de brincar cansado.
"- Sua vez de dizer o que na sua mente se passa."
Com toda exatidão, não hesitei. - "Lembro do nosso tempo de aventuras,
de se esconder em outras ruas, procurando um refúgio
para que nossas bocas sem urros pudessem se encontrar."
Vi um branco na face da outra que em desespero fingiu não lembrar.
Não preocupei-me, mudei de lembrança. "- Lembro dos antigos vizinhos,
daqueles que reclamavam sozinhos em ver a gente se divertir."
Os nossos outros amigos não vejo por onde andam.
Se ainda andam, não sabemos... talvez nunca saberemos.
Por tanto tempo juntos, agora vemos noutros mundos a solução.
Queria estar bem longe para sentir na pele a falta que me faz.
E se, hoje, eu não faço em ti nenhuma diferença,
talvez um dia amanheça com saudades de mim.