Depois de casados teremos dois filhos;
um dia brincaremos com eles,
noutro os mandaremos dormir mais cedo.
Um dia assistiremos televisão no sofá,
noutro veremos filme no cinema.
Um dia eu direi: "Eu te amo",
noutro exclamarei: "Estou estressado!".
Um dia jantaremos fora,
noutro encomendaremos pizza.
Num dia a luz de velas,
noutro nos lambuzaremos todos.
Um dia chuvoso, uma noite sem estrelas.
Uma madrugada de sexo, outra de sono.
Um dia com nariz de palhaço,
em outro com o sorriso enferrujado.
Um dia deitaremos cedo e dormiremos tarde,
noutro nem sequer deitaremos.
Um dia escutaremos música antiga,
noutro ficaremos em silêncio.
Um dia eu lavo a louça e você cozinha,
noutro eu sujo os pratos e você limpa.
Um dia te beijarei enquanto dormes,
noutro reclamarás do meu mau cheiro.
E assim até que a morte nos separe.
Espelho um sono mal dormido, de alguém que acorda no susto e agora assusta-se com si próprio. Não que só algumas doze horas resolvam, mas uma boa dose dessas seria impecável. Reclamo porque durmo pouco e já nem sei diferenciar se é por escolha. Sinto que quem tem planos tem um dia mais longo, mesmo que isso não signifique menos horas de sono.
Quem nunca acordou achando estar perdido? "Onde estou?" é até uma frase comum quando as vinte quatro horas anteriores parecem ter passado há três dias atrás. Sinto que sou escravo de algo, alguém e algoritmos. Por mais que eu não queira, tenho a rotina travando uma de minhas mãos. Num outro lado, numa outra mão, tenho a oportunidade e esperança dividindo espaço como se não pudessem caminhar juntas.
Vejo no espelho uma noite mal dormida, de alguém que se não pudesse acordar, talvez, até agradeceria. Deixo correr só mais alguns minutos enquanto estou na profundez desse sono, deixo todos os problemas fora da minha cama e o escudo é meu lençol. Descubro que descobrir-se é tomar coragem neste mundo já descoberto. Já devo acordar?!