Põe mais sal, tem pouca comida;
Falta a salada, falta a bebida.
A mesa falta, falta a família,
a reza longa; mas tem fome e fadiga.
Falta tempero, nó na barriga;
a gula de uns acaba em briga.
Falta o arroz, falta a marmita;
resta a bebida matar a sede.
Cadê a água? Cadê a rede?
O pé descalço, o chão quente;
falta a tinta pintar a parede.
Para um banho falta o sabonete;
falta vergonha para limpar os dentes.
O que não falta é amor entre a gente!
Falta miséria, falta cautela;
não vão à escola, não vejo novela.
Restam homens, faltam donzelas;
matam árvores, sobram velas;
faltam problemas e cinderelas.
Falto com a sorte, fartam dilemas;
escassez de poesia nos meus poemas.
Era menino e nascia num dia sem sol, num eclipse constante. No cartório: Samuel Tobias da Silva, mas é o Preto desde pequeno. Não tinha nome, apenas cor. Até mesmo dentro de casa, seus pais confundiam seu nome com a ausência de cor do escuro. Dentro da casa não tinham lâmpadas, os poucos jantares eram todos à luz de velas. Como esclarecido, por falta de opção. Ali não tinha Jornal Nacional muito menos video-game. Era um eclipse constante...
O Preto cresceu em meio a caminhadas até a escola, subindo, descendo, se arrastando em ruas de lama. Os outros iam de carro pelas avenidas de asfalto. Trabalhava desde os seis anos nas colheitas das fazendas vizinhas. Os outros esperavam seus pais chegarem do trabalho. E nessa sequência de diferenças, o Preto via sua vida abatida e derrotada. Era corpulento, sem corpo lento; forte!
Seus pais o encorajava. Dizia que um dia o rio que corria por dentro de sua terra viraria piscina de água quente, a grama seca e sem cor cresceria viva, que teria bons amigos para dividir os prazeres da vida. Aliás, os amigos ele tinha vários, mas nenhum, de fato, era amigo dele. Uma mutualidade solitária! Seus jogos de futebol envolviam uma bola de meia e duas árvores de galhos tortos. Era o maior estádio do mundo, com certeza! Mas logo esquecia da brincadeira, pois partia para o trabalho.
Ia bem na escola; digo como bom aluno. Era Preto até para os professores, mas não era referência para nada. Para as festas de aniversário, não era nem lembrado. Nas comemorações de final de ano na escola era sempre convidado para ser o Saci na peça teatral. Um convite irrecusável, irrisório!
Mas como uma chuva de verão, um tiro de bala perdida, algo inesperado atingiu aquela casa pobre e sem luz: a sorte. Ela veio em forma de números. Seu pai ganhara na loteria. Um bom dinheiro, muito mais bem-vindo, aliás. A casa esbanjava alegria e cor. O, até agora, Preto era sorriso de orelha a orelha. Seu campo de futebol virava realidade em sua mente, muitos torcedores acenando suas bandeiras. Agora sua raça ganhava um nome: Samuel Tobias da Silva, mas era Samuca desde então. Frenquentava festas com os amigos, era o príncipe na encenação.