
Quente colo confortável em que deito meu peso;
perco-me nas pálpebras fechadas do meu corpo.
Um navegar de sono! Não vou trocar de trono.
Sou todo seu, colo meu, como nunca de ninguém fui;
é descanso de um cansaço de nada. Cansaço por nada!
Carícia no pé do cabelo cheirando fumaça (de cigarro).
Pobre, suado! De quem falo nesta hora da madrugada?
Hora de esquecimentos! Digo das incertezas; pois,
se repito um erro, é sexta que nos veremos. Colo...
de coxas finas e vestes nuas, escutas minha voz?
Responda com um balançar e volto a fingir que durmo.
É voltar a dormir um sono de nada. Sono por nada!
Perfeito foi o adormecer da noite
em que nossos sonos acumulados
rejeitaram as camas desarrumadas.
Sua face moribunda procurava
repouso no meu ombro magro;
por vezes tarado ao sentir
sua pele morna esquentar-me.
Em suas batalhas contra o cansaço,
quase fora derrotada na parte do cochilo.
Ficamos de dedos entrelaçados,
acariciando nervos e as dobras.
Eu ria de bobo... Gargalhava!
Gostoso sentir o seu peso
sentado neste sofá...
o filme chatérrimo na TV;
você sem sorrisos no olhar.
Reparava nas suas unhas vermelhas
que não combinam com sua pele,
nem com seus braços largos
nem com seus dedos grossos.
Não há proporção com seu corpo!
Olhei-te como monstro. Fiz cara feia!
Mas a imperfeição era só pensamento mundano.
No fim, reclamaste da minha inquietação.
Não revidei! Sosseguei-me,
ceguei-me e dormi antes que teus olhos!
Na janela por onde o vento passa,
entra um mau cheiro de terra molhada.
Cheiro de chuva misturado com fumaça.
Ah! Eu não gostei não!
A Roberta Miranda no último volume
foi cuspida da casa da vizinha como
água suja dos canos de esgoto.
A perua branca dos ovos sobe a rua
reclamando e propagando, com aquele megafone,
toda sua ironia e meu despertador.
Ah! Eu não queria acordar!
Depois a buzina do pão,
o caminhão entregando um fogão,
o ruído do motor do portão
e meu sono não voltou mais não.
No frio da madrugada de hoje, ninguém escutava o barulho de pneus velozes na avenida, só a respiração profunda do meu irmão na cama ao lado; podia-se ouvir também o cachorro bebendo água no quintal; no quarto totalmente escuro, o despertador marcava duas e quarenta e oito; a janela de alumínio estralava de minutos em minutos.
Cobri a cabeça e fechei os olhos. Uma moto solitária rasgou o ar na avenida e, mais um estralo da janela. A inquietação tomou conta de meu corpo como um demônio, eu virava de um lado para o outro, tentando uma posição cada vez mais confortável. Encostei minha cabeça na parede e comecei a viajar na imaginação: o vizinho ficou preso no portão tentando passar por ele quando estava fechando, de repente, virei herói quando salvei uma garota caindo de um prédio, logo após, eu já era um apaixonado entregando flores à amada.
E fui voando entre as salas da imaginação até que te vi morrendo. Decidi não mais pensar em nada, mas isso era impossível. Abri os olhos: o mesmo quarto escuro; no relógio já eram três. Fechei-os e cobri a cabeça.
Estava frio demais, parecia que a cidade inteira dormia, menos eu. Voltei a me concentrar no sono; do nada, eu já era dono de uma empresa conceituada, casado com a menina dos meus sonhos e levando os filhos para o zoológico. Vaguei até que pensei num suicídio. Evitei pensar em mais nada. Logo depois, eu já não lembro, devia estar dormindo.
Espelho um sono mal dormido, de alguém que acorda no susto e agora assusta-se com si próprio. Não que só algumas doze horas resolvam, mas uma boa dose dessas seria impecável. Reclamo porque durmo pouco e já nem sei diferenciar se é por escolha. Sinto que quem tem planos tem um dia mais longo, mesmo que isso não signifique menos horas de sono.
Quem nunca acordou achando estar perdido? "Onde estou?" é até uma frase comum quando as vinte quatro horas anteriores parecem ter passado há três dias atrás. Sinto que sou escravo de algo, alguém e algoritmos. Por mais que eu não queira, tenho a rotina travando uma de minhas mãos. Num outro lado, numa outra mão, tenho a oportunidade e esperança dividindo espaço como se não pudessem caminhar juntas.
Vejo no espelho uma noite mal dormida, de alguém que se não pudesse acordar, talvez, até agradeceria. Deixo correr só mais alguns minutos enquanto estou na profundez desse sono, deixo todos os problemas fora da minha cama e o escudo é meu lençol. Descubro que descobrir-se é tomar coragem neste mundo já descoberto. Já devo acordar?!
Um moço dorme de olhos abertos,
não vê, nada vê, apenas sonha.
Tem uma conversa insistente,
o moço enquanto dorme.
Dialoga com seu próprio introspecto,
entre sussurros e dialetos;
não tem vez: agora você já era.
Deixa o moço dormir enquanto pode,
a fala é só a dor de quem espera.
O moço desacordado, por hora ilustre,
conversa comigo enquanto dorme.
Dialoga com um outro aspecto.