Trezentos e sessenta e cinco
que num só ano não há vínculo.
Perco-me no tempo
como o som do piano no ar,
como o sono em noite de Lua.
Há de convir que razões não faltam,
pois neste espírito corrido
apenas o que sentimos é cansaço.
Passam segunda, terça e a semana
num único piscar de olhos e,
quando no mais tardar damos conta,
a contagem regressiva encerra-se.
Trezentos e sessenta e cinco;
então recomeçamos.
Na trajetória do vento,
embico na 13 de maio
crente da proximidade com a 23.
Logo atrás, tinha a 25 de março
acompanhada de uma data distante:
XV de novembro de sei lá quando.
Expectante pela chegada na 7 de abril,
reparo que na paralela segue a 24...
de maiô em pleno centro
vinha a moça dificultando o trânsito:
- Tudo parado na 9 de julho!
E no calendário urbano que vivo
deito-me no leito
como as mãos num trágico rosto,
como um mendigo em plena rua
sem data nem nome nem saída.
Trezentos e sessenta e quatro...
que num só ano não há retrato.
Espelho um sono mal dormido, de alguém que acorda no susto e agora assusta-se com si próprio. Não que só algumas doze horas resolvam, mas uma boa dose dessas seria impecável. Reclamo porque durmo pouco e já nem sei diferenciar se é por escolha. Sinto que quem tem planos tem um dia mais longo, mesmo que isso não signifique menos horas de sono.
Quem nunca acordou achando estar perdido? "Onde estou?" é até uma frase comum quando as vinte quatro horas anteriores parecem ter passado há três dias atrás. Sinto que sou escravo de algo, alguém e algoritmos. Por mais que eu não queira, tenho a rotina travando uma de minhas mãos. Num outro lado, numa outra mão, tenho a oportunidade e esperança dividindo espaço como se não pudessem caminhar juntas.
Vejo no espelho uma noite mal dormida, de alguém que se não pudesse acordar, talvez, até agradeceria. Deixo correr só mais alguns minutos enquanto estou na profundez desse sono, deixo todos os problemas fora da minha cama e o escudo é meu lençol. Descubro que descobrir-se é tomar coragem neste mundo já descoberto. Já devo acordar?!