1. 12 August 2010

    Da náusea aos pensamentos

    Da náusea aos pensamentos

    Náusea nos pensamentos de náuseas que tive;
    repugnância digna de um digno adjetivo.
    Pois, da vida, não levo nada que vi na vida
    nem as batalhas de verbos dos verbos no infinitivo.

    A vida é um navio vagabundo de qualquer pirata:
    cheia de riscos e rabiscos, mas dura na queda.
    Relevando a hipótese de um maltrato inimigo
    surpreender-te pelas costas e levar tudo à merda.

    Devo ser um louco no meio de tantos normais.
    Estudam... trabalham... namoram... vivem...
    enquanto divirto-me com excessos de nada;
    num harém virtual, num virtual harém.

    Não reclamo! nem tenho orgulho. Orgulho?!
    Só quero atenção de verdade, mas não posso comprá-las.
    A atenção não é uma mulher-menino de esquina:
    não aluga-se nem é um comércio de roupas ou balas.

    Pensamentos nas náuseas dos pensamentos que tenho;
    repugno cada sol que repugna o meu sereno.
    Porém, na vida não suei tudo que devia na vida,
    mas suarei se for antídoto para este veneno.

  2. 03 August 2010

    Labuta

    Vagabundo

    Acabou!
    A famigerada férias forçadas proclamou derrota...
    Cessou-se.
    Pouquíssimo tempo depois de “Ferruginoso”
    perdi aquele estado do qual descrevia.
    Agora sinto carência da carência que tinha.
    Ao menos tive a graça de saborear aqueles versos;
    na extrema rapidez guardei-os embaixo do colchão
    (feito mesada), crente de que na escuridão durará.
    Resumo a culpa da disfarçada tristeza acima
    em duas palavras que se opõem: novo emprego.
    As tragédias ainda são as mesmas,
    só trocam os locais e as personagens.

    Começou!
    Preencho uma bancada cor-de-nada
    cheia de furos para a passagem de fios.
    A cadeira estofada, laranja e velha
    alegra-se por suportar meu peso todos os dias.
    Não tenho mais de atender telefonemas
    como assim era no último serviço.
    Noutro lado também não farei mais poemas,
    pois o tempo na labuta sempre será maciço.
    Disso já sei de cor e salteado.

    Decorou?
    No decorrer, de tanto correr,
    corroer-me-ei.
    Na jovem mente ainda,
    martelará dolorida,
    uma pergunta assim:
    até que ponto valerá a pena?

  3. 03 April 2010

    Em meio a pensamentos

    Capotado

    Saia, em meio a pensamentos vagos, veloz. Fim de tarde, o expediente expirara-se, o trânsito fervia. Não sei aonde tão veloz ia se ao menos podia acelerar o carro. Tentava, em meio a pensamentos vagos, um vão espaço para que chegasse em casa mais cedo. Tentava em vão.

    Era sempre assim: tempo gasto que não voltaria jamais. O trânsito era rotina após horas de trabalho. Talvez até mais rotineiro que a velha mania de acordar cedo, engravatar-se, sentar atrás de uma mesa de escritório e fingir ser importante para a empresa. Um café entre e-mails respondidos e telefonemas.

    Mas, num dia atípico feito magia vindo de um furacão feroz, saiu do trabalho e não encontrara carros em nenhum lugar. Ouvia silêncio no seu mais literal significado. Procurou por todos lados um farol aceso, um ronco de motor, um motorista estressado; não encontrou nada. Um dia perfeito, ainda que atípico. Chegaria em casa cedo, pois tinha espaço para acelerar o carro, testá-lo em sua maior performance. Carro novo viciado com o trânsito, mal sabia o que era correr.

    O homem curioso com o que via acontecer, entrou em seu carro ansioso. As ruas vazias tinham cheiro de asfalto ao invés de fumaça. Conseguia até reparar no branco das faixas de pedestres, no verde dos semáforos que permanecia inalterado. Tudo calmo!

    O homem ansioso com a chegada, acelerou seu carro curioso. Fazia curvas em perigo, ignorava as placas das avenidas. O seu limite era incógnita. Queria ter de volta o tempo gasto no trânsito como se aquele vazio fosse a recompensa. Mas, num dia atípico feito alegria vindo de uma tragédia, capotou o carro do homem e preso sob as ferragens agora conseguia ouvir a multidão, o barulho de buzinas, de motores. Sentiu que o encanto da miragem havia partido.

    Em rápida lembrança pensou no filho que estava em casa esperando-o para a janta. Lembrou-se da infância, da escola, dos professores. Fez milhares de perguntas em tão míseros segundos. Havia sentido tanto estudo e conhecimento se ali tudo havia perdido? E os amigos foram apenas para desmistificar o acaso? O dinheiro na poupança rende para o futuro dos outros? Não sentia o corpo. A sirene soava ora perto, ora longe.

    Conseguia, enfim, ouvir o murmurinho das pessoas comentando sobre o ocorrido. De fato, quase intraduzíveis mas sabia que era por aquilo que eles estavam ali. Refletiu, em meio a pensamentos árduos, talvez até tarde demais, que o trânsito servia para manter a risca, não sair do traçado. Este fazia do limite uma certeza. A certeza de que chegaria em casa seguro, mais cansado e estressado, mas seguro. Para rever a família e jantar unidos. Para acordar no outro dia e enfrentar a rotina do trabalho, ou melhor, do trânsito.

    E naquele fim de tarde, num dia atípico, findava também a vida de um homem. 

  4. 09 January 2010

    Relutância (ou a batalha da manhã seguinte)

    Acorda pra vida, vagabundo!

    Acorda cedo para enfrentar o dia, para enfrentar o ônibus cheio, para cumprimentar seus colegas de trabalho, para no fim do mês ter alguma retribuição. Se disso é o que vale o tempo, percebo que um dia de cada vez é demorado demais. Semanas viram meses, a casa vira abandono. Enquanto cansamos o corpo e lutamos por um alívio do emocional e dos constrangimentos, concluimos que a tese do 'enobrece o homem' cai por água abaixo e comparamos velhos hábitos os imortalizando como bons tempos.

    Não vivo, sobrevivo. Do dinheiro que sobra não vejo nada, os amigos que tenho não encontro, os amores que quis continuo querendo. Estranho pensar que por toda uma vida você passou planejando caminhos para que fizessem sentido e para que te satisfizessem, pensando em estudo, trabalho e dinheiro como axiomas de fácil acesso. Volto ao dia a dia igualando-os com batalhas de uma guerra. O vencedor é o tempo que acaba levando todo seu conhecimento ao ralo, todo seu dinheiro aos outros, todo o seu cansaço para uma falta de descanso, toda a sua vida para uma nostalgia e uma sucessão de resguardas.

  5. 13 December 2009

    O caminho de volta

    O caminho de volta

    [...]

    Eu já não aguentava mais ficar trancafiado naquela sala. Sabe que ali, às vezes, parece um inferno? Quando o telefone decide tocar é uma ligação atrás da outra e por motivos que até Deus duvida. Resolvi bater perna e dar uma volta pelo hospital. “Por que não visitá-la?”, pensei.

    Sei que já eram quase seis da tarde, hora de deixar o trabalho para o dia seguinte, e além do mais, era época de recesso das aulas. Sabia que você morava perto de mim, que teria de voltar para casa em algum momento, que poderíamos muito bem voltarmos juntos e... que... uma pitada de coragem seria necessária.

    Naquele instante eu tinha minhas segundas intenções. Aliás, não só ali. Já havia algum tempo que Daniela se tornara obsessão. Pois bem, decidi vê-la.

    Papo foi, papo veio e...

    - Podemos voltar juntos hoje, né? – falei com uma tremedeira por dentro.
    - É... sim. – pensativa, disse.

    A verdade é que não lembro muito bem como é que foi o desenrolar da conversa, nem mesmo sei a maneira que ela respondeu. Só sei que a sorte estava lançada e algo que eu queria estava próximo de acontecer (ou não).

    [...]