Prossegue, bondosamente malvada, a vida da gente. Embaixo do meu próprio nariz, sobre nossas cabeças, sobre tudo o que te cerca; aí, bem aí, está a resposta para todas as dúvidas sobre o paradoxo: a vida ávida. Só mesmo o tempo ainda que indeciso até mesmo com seus próprios contratempos é capaz de compreendê-la. Talvez numa eterna parcialidade. Tudo bem, ainda assim há entendimento.
Prossegue, tristemente linda, a vida da gente. Quem disse que não há beleza no triste (ou tristeza no belo)? É esse o intenso atrito, o imenso contraste entre duas partes num só corpo. A vida é explicação para tantos passos à frente e, confusamente, por também estarmos no mesmo lugar. Nós somos os lutadores, mas é ela quem nos nocauteia. Caímos. Deparamo-nos fracos. Mas lá no fundo, lá no fundo do coração vive a tal de esperança. A primeira a ser esquecida, a última a ser enterrada. Dizem ser uma árvore sem folhas que volta ao seu verde na saída do outono. Forçamos os braços contra o chão. Há vontade, há a esperta esperança. Levantamos e mais tantos passos para frente.
Prossegue assim, desde o período de não-lembranças até o último suspiro enquanto vivo, a vida da gente. Uma inércia, um movimento parado, um paradoxo.
Estava a dois passos de mandar tudo à merda. Claro que nessa revolução toda quem sairia com o maior prejuízo, exclusiva e unicamente, era eu mesmo. Mas, sabe, taquei um foda-se! Queria mesmo era ter a sensação de liberdade, mesmo que por dois segundos e meio. A consciência, ainda em sua consistência, refletia que liberdade só existia na ficção e olhe lá. No entanto, prossegui com o discurso de “vocês são um bando de filha da puta”. Foi assim meu pedido de demissão.
Dramaticamente foi um luxo. Financeiramente foi um lixo. Não poderia descrever melhor essa transição de dependente do emprego e dependente do mundo: dois segundos e meio e só. Foi o tempo com qual esperneei e pedi as contas. Fiz de conta que era dono do mundo, meu próprio chefe, também. No eterno instante, debruçava em meu corpo a vontade de explodir ou ecoar afora o grito de “Independência ou morte!”. Aquilo era vanglorioso demais para mim, o ápice da minha existência, um escândalo disfarçado de vítima.
Claro que só percebi a burrada que havia feito depois que o sono da noite anterior acabou e então levantei sem uma hora exata. Acordei sem nem saber onde tomaria café da manhã. A partir disso, fácil foi concluir: tudo pioraria.
E segui nessa vida de acordar com fome e mantê-la. O intuito era economizar o dinheiro que eu não tinha através de um regime forçado. Ainda assim, não emagreci. Tardava o café, para beliscá-lo no almoço e enfim saboreá-lo na janta. Ia dormir cada vez mais tarde da noite (ou cedo da manhã) a fim de acordar num horário maior que o meio-dia. Não adiantava muito! A fome corroia o estômago e acabava despertando com a sensação de um roedor dentro de mim. Levantava, bebia água e voltava para cama.
Mal passaria uma semana do meu decreto de liberdade e eu já esboçava reações de arrependimento. O falso título de ser chefe de mim mesmo havia sumido pelo ralo do banheiro. Afinal, haveria de me esforçar muito para tal. Bateu o desespero e o que eu fiz? Parti para a rua atrás de uns bicos. Distribui panfletos, entreguei pizza com a velha bicicleta sem selim do meu irmão, ajudava as senhoras que saiam do mercado carregando pesadas sacolas, e por aí seguia. Nos poucos trocados, consegui mais alguns dias de sossego e pude acordar por dois ou três dias na hora que eu bem entendesse.
O mês ia acabando e as contas já acumulavam numa pilha de envelopes na mesa da cozinha. É luz, é água, é condomínio, é uma caralhada de coisa amontoada. Só não estava ali a minha responsabilidade; devo tê-la perdido no momento em que pedi demissão (ou o porteiro esqueceu-se de me entregá-la). Quis ser dono de um futuro que eu não tinha, ainda mais sem o emprego remunerado. Era pouco, mas o salário sempre soube pagar minhas contas.
Se eu pudesse retomar o tempo, aqueles dois segundos e meio não teriam existido. Teria contido minha raiva, minha descontentação e só teria pedido as contas se eu tivesse em mãos outro emprego garantido. Burradas, a gente vê por todo lugar. Hoje as trago comigo.
Sempre fui um romântico maquiavélico, daqueles que presenteia com caixas vazias e esbanja a moça de cravos ou rosas ou margaridas só para assisti-las murchar dias depois. Em minha mente, que diacho de mulher não se abre com um buquê de flores e um cartão escondido entre as pétalas? Essa é então a minha tática desde quando nasceu em mim um desejo pelo sexo oposto: presenteá-las com flores, ora vê-las felizes, ora vê-las despedaçarem. Só que no mais de repente que o mundo flui, o próprio desgraçado virou-se contra meus artefatos...
Havia encontrado uma mulher, talvez a única existente, que não ligava para esses presentes, digamos que, frágeis. Ficaria boquiaberto desde então! E recusou ramalhetes, foi ao lixo com os papelões vazios das caixas, não aceitou sequer bombons nem cestas de café do amanhã nem beijos de Don Juan de hoje. Aos olhos terceiros, ela seria chata; num ponto extremo da coisa. Aos meus, perfeita. Tão complicado era agradá-la que isso se tornara paixão. Obcecado por tamanha crueldade que proporcionou em mim certa revolta, não medi esforços para dizer que a amava. E recusou declarações, foi ao lixo com as cartas de amor, não aceitou sequer um eu te amo. Compreendi: o feitiço virara contra o feiticeiro.
Retornei ao modo clássico de ser, mas não fazia mais nenhum sentido. Não poderia iludir um coração alheio e largá-lo na sarjeta feito filhote de rato de esgoto. Foi assim comigo, sempre fui assim com outras. E minha tática havia falhado: pétala murcha agora sou eu. O mundo abriu meus olhos.
Um dia você acorda e pensa em mudar o mundo. Faz um plano aqui, uns rabiscos ali; no fim descobre o quão é difícil e imensa essa ideia. Descontente, pensa então em mudar as pessoas ao seu redor. Sai em busca de gente nova, vive por ai querendo amizade alheia; no fim descobre o quão é insubstituível e prazeroso a presença dos velhos amigos. Ainda pensando em uma forma de mudar a vida, querendo um novo sentido, talvez meros desafios e com gana de novos sabores, decide mudar a si mesmo.
Foi assim que um dia acordei e pensei em mudar o mundo. Fiz um rabisco aqui, um plano ali; no fim percebi que ainda dava tempo de quebrar a cara. Sendo assim, pensei em mudar o mundo ao meu redor. Sai do emprego, vivi por ai buscando desafios; no fim percebi que a incerteza é um prato cheio de parasitas. Ainda pensando numa forma de mudar de vida, querendo um novo futuro, talvez não tão melhor, mas com a sede matada na fonte, decidi mudar a mim mesmo.
A história de um homem que nunca foi à escola começa quando, decididamente, resolve ir a escola. Difícil enfrentar cadernos e professores, estes últimos vistos como donos da razão, considerando que a maior aproximação que tivera disso tudo foi ver o filho fazendo lições de casa na mesa da cozinha. Na família, o homem sem nome era o único que não decifrava as letras. Foi encorajado por um amigo, leitor assíduo das tragédias no jornal da cidade. O homem sem nome via apenas as fotos dos carros batidos nas estradas, não sabia quantos morreram, como ocorrera, caso ninguém contasse o fato.
Seguia toda noite, depois do árduo trabalho, para uma sala improvisada. Ali, uma lousa estreita pendurada com arame de varal mal cabia a letra da professora, cadeiras espalhadas pelo chão de terra batida, os cadernos eram postos sobre o colo. Não havia postura, tudo era hipótese. Na parede de trás, letras garrafais desenhadas em folhas pautadas de caderno formavam o alfabeto. Até então, desconhecidas pelo homem sem nome. Como dito, tudo era hipótese.
Agora, ao invés de enxada nas mãos inchadas havia lápis nos dedos hostis. Ao invés da força aplicada na terra fértil, haviam rabiscos cruzando as linhas do papel. Suor na testa convertido em sorriso no rosto. Com aperfeiçoamente, elegância, insistência, ostentação, ultrapassou limites, construiu a c-a-s-a, separou a sí-la-ba, formou frases. E hoje, Manoel da Silva, o antigo homem sem nome, daria outros nomes para tudo o que quisera.
Acorda cedo para enfrentar o dia, para enfrentar o ônibus cheio, para cumprimentar seus colegas de trabalho, para no fim do mês ter alguma retribuição. Se disso é o que vale o tempo, percebo que um dia de cada vez é demorado demais. Semanas viram meses, a casa vira abandono. Enquanto cansamos o corpo e lutamos por um alívio do emocional e dos constrangimentos, concluimos que a tese do 'enobrece o homem' cai por água abaixo e comparamos velhos hábitos os imortalizando como bons tempos.
Não vivo, sobrevivo. Do dinheiro que sobra não vejo nada, os amigos que tenho não encontro, os amores que quis continuo querendo. Estranho pensar que por toda uma vida você passou planejando caminhos para que fizessem sentido e para que te satisfizessem, pensando em estudo, trabalho e dinheiro como axiomas de fácil acesso. Volto ao dia a dia igualando-os com batalhas de uma guerra. O vencedor é o tempo que acaba levando todo seu conhecimento ao ralo, todo seu dinheiro aos outros, todo o seu cansaço para uma falta de descanso, toda a sua vida para uma nostalgia e uma sucessão de resguardas.
Quando este passar, no próximo ano seremos, enfim e novamente, brasileiros. Esperamos quatro anos na vontade, juntando gana para vibrarmos. Seremos patriotas! Pois, por mais que a flâmula balance todos os dias, ela apenas é venerada em ano de copa do mundo. O país verde-e-amarelo veste suas cores: as ruas e casas viram brasileiras. E ai, ai se a seleção não trouxer o caneco, deixaremos já no dia seguinte de sermos patriotas, viraremos apenas torcedores. Ruas desbotam suas cores, casas despendem-se de suas roupas, brasileiros exilam-se do seu país. O Brasil é o país do futuro, só do futuro.
Era menino e nascia num dia sem sol, num eclipse constante. No cartório: Samuel Tobias da Silva, mas é o Preto desde pequeno. Não tinha nome, apenas cor. Até mesmo dentro de casa, seus pais confundiam seu nome com a ausência de cor do escuro. Dentro da casa não tinham lâmpadas, os poucos jantares eram todos à luz de velas. Como esclarecido, por falta de opção. Ali não tinha Jornal Nacional muito menos video-game. Era um eclipse constante...
O Preto cresceu em meio a caminhadas até a escola, subindo, descendo, se arrastando em ruas de lama. Os outros iam de carro pelas avenidas de asfalto. Trabalhava desde os seis anos nas colheitas das fazendas vizinhas. Os outros esperavam seus pais chegarem do trabalho. E nessa sequência de diferenças, o Preto via sua vida abatida e derrotada. Era corpulento, sem corpo lento; forte!
Seus pais o encorajava. Dizia que um dia o rio que corria por dentro de sua terra viraria piscina de água quente, a grama seca e sem cor cresceria viva, que teria bons amigos para dividir os prazeres da vida. Aliás, os amigos ele tinha vários, mas nenhum, de fato, era amigo dele. Uma mutualidade solitária! Seus jogos de futebol envolviam uma bola de meia e duas árvores de galhos tortos. Era o maior estádio do mundo, com certeza! Mas logo esquecia da brincadeira, pois partia para o trabalho.
Ia bem na escola; digo como bom aluno. Era Preto até para os professores, mas não era referência para nada. Para as festas de aniversário, não era nem lembrado. Nas comemorações de final de ano na escola era sempre convidado para ser o Saci na peça teatral. Um convite irrecusável, irrisório!
Mas como uma chuva de verão, um tiro de bala perdida, algo inesperado atingiu aquela casa pobre e sem luz: a sorte. Ela veio em forma de números. Seu pai ganhara na loteria. Um bom dinheiro, muito mais bem-vindo, aliás. A casa esbanjava alegria e cor. O, até agora, Preto era sorriso de orelha a orelha. Seu campo de futebol virava realidade em sua mente, muitos torcedores acenando suas bandeiras. Agora sua raça ganhava um nome: Samuel Tobias da Silva, mas era Samuca desde então. Frenquentava festas com os amigos, era o príncipe na encenação.
Nos meus onze anos, numa data próxima ao meu aniversário; meu pai havia chegado bêbado em casa. Beber não era costume dele (ou melhor, ainda não havia tornado um), mas sempre passava no bar da esquina de casa, depois do trabalho, para encontrar os amigos.
Mamãe não encontrava mal nenhum nisso. Algumas vezes até reconhecia que papai chegava menos estressado, ainda mais depois de um árduo dia de trabalho; porém desta vez, ela não suportou o fato da embriaguez.
Eu havia visto papai naquele estado apenas uma vez porque mamãe tirou-me de perto dele nas outras três, e sempre agia agressivamente quando estava embriagado. Dizia a mim que bebia para aliviar-se dos grandes problemas. Eu escutava de longe os gemidos da agressão de papai.
Vi aquelas cenas se repetirem outras vezes mais. Quando um dia resolvi intervir na briga e defendi mamãe. Meu pai, ainda querendo agredi-la, ficou quase sem reação ao me ver no meio dos dois. Se ele transformava o alívio dos problemas em agressão, eu só via a bebida transformada em sofrimento da minha mãe. Crescendo, vi a separação de meus pais a cada dia, e fui excluindo os maus exemplos que papai me mostrava.
Espelho um sono mal dormido, de alguém que acorda no susto e agora assusta-se com si próprio. Não que só algumas doze horas resolvam, mas uma boa dose dessas seria impecável. Reclamo porque durmo pouco e já nem sei diferenciar se é por escolha. Sinto que quem tem planos tem um dia mais longo, mesmo que isso não signifique menos horas de sono.
Quem nunca acordou achando estar perdido? "Onde estou?" é até uma frase comum quando as vinte quatro horas anteriores parecem ter passado há três dias atrás. Sinto que sou escravo de algo, alguém e algoritmos. Por mais que eu não queira, tenho a rotina travando uma de minhas mãos. Num outro lado, numa outra mão, tenho a oportunidade e esperança dividindo espaço como se não pudessem caminhar juntas.
Vejo no espelho uma noite mal dormida, de alguém que se não pudesse acordar, talvez, até agradeceria. Deixo correr só mais alguns minutos enquanto estou na profundez desse sono, deixo todos os problemas fora da minha cama e o escudo é meu lençol. Descubro que descobrir-se é tomar coragem neste mundo já descoberto. Já devo acordar?!