Funciona quase como um ritual: o elevador aponta o décimo sexto, saio às pressas, sempre reparo rapidamente a cortina fechada da janela de seu quarto, mais alguns passos, toco a campainha do 158-A, tampo com o indicador a visão do olho mágico e puxo com a outra mão a maçaneta para que sinta dificulta em abrir a porta. Aguardo o ruído da chave liberando o trinco e boto ainda mais pressão na maçaneta. Um segundo depois, abro o sorriso, suavizo a força sobre a maçaneta, a porta escancara-se e... então... nossos olhos se encontram. Feito um flash que cega por segundos, os sentidos perdem-se; resta a mim apenas abraçar seu corpo por mais uma vez como se fosse a primeira. E pouco a pouco retomo a consciência, o que havia de incomodar ficou do lado de fora; nosso mundo enfim recriado.
Que tamanha sorte tenho em tê-la, meu amor. Faz um ano, que muito mais parece, invisto meu tempo pensando em ti e, cuidadosa e carinhosamente, elaborando ora surpresas ora planos. Não há sensação no mundo que equivalha ao sentimento que guardo em mim, no coração. Nunca nada tão intenso foi vivido.
Com a soma de todas as palavras acima, explicito e reforço meu agradecimento pela sua companhia, atenção, amizade, carinho... Exijo que muitos outros anos caminhem até nós, pois ao menos no nosso mundo somos o centro de tudo.
Desta vez não tinha frio.
Meu algodão de pele lisa
esperava o amanhecer ali,
e parada, e seminua, e isso.
Encarava meus olhos de sono
como se ainda quisesse algo
(e no fundo não errei).
No embate da noite, de tanto,
não houve empate: perdi.
Com a graça de batalhadora,
fez o desejo forçar um ensejo
e encenamos mais um filme.
Desta vez já tinha sol.
Meu algodão de pele cansada,
então, assim declarou:
- Nesse jogo só há vencedor
quando ambos perdem o combate.
Semana que vem, promete me amar?
Já que é árduo um encontro nosso
nessa vida de contrários horários.
Espero que não deixemos esfriar
essa vontade de termos um ao outro;
se sem um outro você, sou um eu vazio.
Poder então, tocar os teus lábios,
rir do seu riso, esquentar seus abraços;
encher-me em alegria, se não só,
trancá-la de vez em nossa casa.
Semana que vem, promete ver,
com maquiados olhos cegos de amor,
que eu, somente, só quero a ti?
E se é tão difícil compreender,
mesmo sabendo que palavras não bastam;
saiba que em tudo que disfarço e faço,
é sempre pensando em um tudo você.
Era um silêncio seco, pesado aos meus ouvidos.
Na imensidão secreta do nosso refúgio,
um porta-retrato sobre o criado-mudo,
um abajur sem lâmpada do outro lado
e seu corpo estendido no leito de sono.
Era tão confortável velar seu descanso.
Um anjo de maquiados olhos fechados.
Reclamou cansaço enquanto à mesa,
desfez da toalha no miúdo corpo
e se jogou por cima da roupa de cama.
Amanhã já vai chegando, eu aqui,
sentado a sua frente, deslumbrado.
Despertei-me do chão aconchegante,
soltei um beijo sem graça em sua boca,
e te cobri com toda sutileza possível.
"Tenha um bom dia, meu bem."
Num bar d'hotel, estou a olhar (sem pretensões),
uma garota que não sabe nem andar
de mãos abraçadas com um outro rapaz.
Eu via preconceito nos vidros dos carros,
nas placas de "vende-se", no toque do celular;
Enquanto que os magrelos corpulentos gargalham
e se divertem na mesa de bilhar. Ora pois,
o que há de errado em não querer dançar?
Com chaves no bolso ao estacionamento vazio;
o rádio zumbindo, eu de olhos fechados...
com meu corpo a descansar. Ora pois,
o que há de certo nessa minha vida?
Preciso de um novo ar para respirar
e de uma garota que saiba andar
de mãos dadas com um rapaz. Pois olha,
vende-se um prédio logo a nossa frente!
Hoje, o amor é uma propaganda de TV:
em pequenos intervalos,
vemos anúncios diferentes. Ora pois,
mude de canal, ou desligue-a de vez.
Se há sinônimo de amar, este sim,
tem mais valor: o silêncio dos gestos
seguido de suspiros na respiração.
Ora então, o que há de errado em vender amor?
Digo que não sei. Hoje, já morto, posso contar detalhes, mas ao certo, nem de perto, senti dor.
Começou num piscar d'olhos e, por mais que tentei o controle, tomou posse dos meus sentidos, dos meus instintos, de mim. Vagarosas eram apenas minhas atitudes; o resto pegava fogo, acelerava. Era o primeiro sintoma! Como conseguiria fugir dessa aflição? Não que eu quisesse, mas o medo existia. Ele sim queria a distância. Enfrentei-o.
Com o passar dos dias, com o pesar dos passos, o que antes só queimava transformou-se em erupção. A vontade de sempre estar ali, olhando o que até então era utopia, não era passageira. Eu contava as horas, sabia todas suas manobras, seus trajetos, perseguia seu cheiro. Mais um sintoma viria: a obsessão. E não, não era a toa.
Ainda tímido e quieto, sofria em vê-la e não tocá-la, sorriria ao tê-la e venerá-la; mas, e mais que isso, faltava coragem. A inércia era constante. Quando essa covardia vira empecilho é porque mais um sintoma está explodindo. Homens receiam tocar em suas musas, são obras feitas para admirarem, não para se terem. O sintoma do impossível entra em questão, te põe em pane.
Ao perceber que este é somente uma pedra e não um muro, o sintoma perde força... perde força... perde força e some. Curado dessa dor que nunca existiu, sua visão parece nítida, sua auto-estima supera qualquer obstáculo, não há descrença nem quem te vença. Existe apenas o óbvio: uma paixão... não correspondida. Pois bem, mesmo num mar de rosas ainda há sujeira.
Precisava declarar-me, descobrir sua consideração por mim, sobre o que faço, sobre o que sou. Um sintoma sem nome, pois não existe enquanto não houver resposta. Um sim ou um não, um talvez nunca pôde. E assim, na penumbra da noite, na caminhada sem sol, contei o que queria, fiz o que podia, a tive em meus braços. Um novo sintoma velho retornou bravejante: uma paixão, enfim, correspondida.
Desde então sou dependente, um vício prazeroso. Dez dedos nas mãos não eram o bastante, precisava de abraços de outros dedos. O perfume, de longe, não saciava mais meus desejos; eu quis ser o colar do seu pescoço, quis ser os pelos de seu corpo para todo eu me arrepiar. Senti reciprocidade, um amor verdadeiro. O mais forte e tumultuado dos sintomas, agora me matava, ia até o gozo e voltava. Nem o mais robusto coração aguentaria, é algo que vem para te levar. E em meu mantenedor, não só pulsava o sangue como também enfrentava a chagas; uma doença sensível e insensata, que é do bem, que te dá vida, mas que te mata.